sexta-feira, 30 de abril de 2010

O primeiro tombo a mãe nunca esquece

Aconteceu exatamente como minha mãe tinha tantas vezes me prevenido que aconteceria. "Cuidado, criança cega a gente", ela me alertou diariamente por quase 6 meses... Mas alguém, realmente, dá ouvidos pra os conselhos alheios?

Pois naquela manhã igual a qualquer outra, lá estava eu na cozinha, preparando uma torrada e fazendo uma pausa do filme russo no qual trabalhava, enquanto minha filha havia permanecido no quarto, sobre a nossa cama e cercada de travesseiros. Uma prática que já tinha se tornado um hábito perigoso.
Ela começou, então, a choramingar por atenção, mas eu resolvi não encurtar meu devido e merecido intervalo e continuei virando a fatia de pão integral na frigideira anti-aderente.

Subitamente, um ruído abafado no andar de cima.
Em seguida, um choro agudo ecoando pela casa. E uma violenta descarga de adrenalina na minha corrente sanguínea, aumentando a frequência dos meus batimentos cardíacos a ponto de eu sentir meu coração na boca, enquanto subia as escadas e encontrava minha filha de bruços no chão, com o rosto enterrado no carpete.
Acho que ela só chorou daquele jeito quando passou por outro susto, no dia em que nasceu e foi arrancada do meu útero. E devia estar igualmente roxa ao redor das narinas... Uma cena terrível para qualquer pai! Fiquei apavorada imaginando se ela teria quebrado o nariz durante a queda e apalpei seus braços e pernas à procura de alguma fratura.

Nada. Só a pesada culpa por não ter escutado uma mãe muito mais experiente que eu.

Mas, na verdade, não é bem a criança que cega a gente. Nós é que acreditamos conhecer aquele serzinho vivo melhor que nós mesmos e acabamos por nos sentir excessivamente cofiantes e não percebemos o quão rapidamente ele se desenvolve. Até que, de um dia para o outro, BUM, acordamos de nossa ignorância.

Mas aprendi minha lição da maneira mais traumática possível e, desse episódio, espero que minha filha seja a única a esquecer seu primeiro tombo.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Mulher Invisível

Em novembro de 1961, quando chegou às bancas pelas mãos dos artistas Stan Lee e Jack Kirby, Susan Storm era uma superheroína de (literalmente) pouca visibilidade entre os membros do Quarteto Fantástico.

Com o passar do tempo e a mudança no contexto social e econômico dos leitores da Marvel Comics, a Mulher Invisível também se tornou a mulher do brilhante cientista Reed Richards e a mãe de Franklin e Val, começando a ter destaque no grupo e influência nas vidas do irmão, Johnny Storm, e do amigo de aventuras contra o Mal, Ben Grimm.
Uma carreira extraordinária e em ascendência que atingiu seu ápice em 2005, com o lançamento da versão cinematográfica dos quadrinhos e a personificação da heroína no fantástico corpo de Jessica Alba.

Da ficção para a realidade, no entanto, o script é bem diferente.

Se durante a gravidez eu já me sentia como uma “barriga ambulante”, depois do nascimento da minha filha eu não sou mais que uma coadjuvante na minha própria vida; uma figurante, simplesmente posicionada para preencher o pano de fundo, enquanto a trama principal acontece no primeiro plano.

Na Índia, não tenho mais um nome, mas um adjetivo. Na verdade, vários. Sou chamada de cunhada (bhabhi), nora (nu), esposa do primo (maami) e assim por diante, dependendo da relação de parentesco do meu marido com os demais membros da sua numerosa família.
Para eles, fui apenas a cavidade abdominal que carregou o bebê por 9 meses, não o ventre que gerou e nutriu um ser vivo por 39 semanas de privações e sacrifícios. Em Déli, eu era unicamente responsável pelo banho e pela troca das fraldas, enquanto eles desfrutavam de uma menininha linda, limpa e feliz. E só não perdi meu direito materno de alimentá-la (já que não estava amamentando-a no peito), porque meu instinto foi mais forte que as convenções indianas e mostrei enfaticamente ao meu sogro quem era a mãe da Pequena.

Mas fui aceitando e me acostumando com meu papel secundário neste enredo, ao perceber as genuínas necessidades de atenção de um recém-nascido para sobreviver. O difícil é entender como, aos poucos, fui me tornando parte da mobília da casa alugada onde moramos há dois meses; como permiti que o meu corpo cronicamente cansado e descuidado fosse acumulando pó, criando teias de aranha, perdendo o verniz, enferrujando até ficar encostado num canto, esquecido e ignorado pelo próprio marido; como me transformei na Mulher Invisível de Kidlington, sem os super-poderes de Susan Storm nem as formas fantásticas de Jessica Alba.

Para saber mais sobre a personagem, visite o site: http://marvel.com/universe/Invisible_Woman

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Na medida certa

Adoro comer. E adoro boa comida. Mas sou um desastre na cozinha e minha reputação de cozinheira inapta já atravessou continentes e se espalhou pela capital indiana, quando tive a infeliz ideia de surpreender meus sogros e fazer pasta al dente “duro”. Eles podem não ser italianos, mas também não são burros!


E minha inabilidade culinária não termina (ou começa) aí. Sou incapaz de fazer um ovo mexido decente ou um arroz que não fique empapado. Meus pães e bolos saem do forno, inevitavelmente, queimados por fora e ainda crus por dentro, e já errei, algumas vezes, na medida de leite em pó com H2O para a mamada da minha filha, que acaba por ter dolorosos dias de constipação.

Sou um Jamie Oliver sem talento. E sempre que minha criatividade é mais forte que minha razão, o resultado de horas amassando, sovando, picando ou misturando vai parar na lata de lixo, sem escalas.
Infelizmente, os problemas parecem reincidir na completa falta de conhecimentos básicos nesta arte, como o uso adequado de especiarias, principalmente o sal. Minha comida ou termina ficando mais salgada que água do mar ou mais insossa que papinha de bebê.

Isso deve ser um traço de família, um cromossoma ligado ao X materno, porque os dons culinários da minha mãe levam a crer que ela iniciou a recente linhagem de ineptas na cozinha. Este é, provavelmente, o real motivo (ou motivação!) pelo qual me tornei vegetariana aos 16. Não aguentava mais o gosto emborrachado dos bifes que ela fazia e congelava para toda a semana...

Ou isso ou algum tipo de ritual inconsciente de passagem para meu reencontro cármico com a Índia, anos mais tarde. Foi naquele país, aliás, que achei a principal vítima para meus desastres gastro-vômicos: o homem que viria a ser meu marido e pai da minha filha.

Mas começamos nosso relacionamento lado a lado, na apertada cozinha do nosso pequeníssimo apartamento em Bangalore; tentando fazer juntos as mais simples receitas da sua terra natal. Na época, acreditei que bastariam algumas tentativas para aprender, com ele, a usar as masalas indianas e melhorar minha aptidão culinária. Nunca deu muito certo, mas ele sempre comeu o que eu colocava no prato.

O que deu certo, no entanto, foi outra mistura: a dos nossos genes, resultando numa linda e singular sikh-brasileira. Foi ela quem passou a ser minha motivação para não desistir do avental e das panelas, enquanto ele continua fazendo o sacrifício diário de aplacar sua fome com a minha comida.

Tudo por um bem maior. Talvez quando nossa filha chegar à idade de desenvolver seu paladar, meus desastres estejam mais comestíveis; e o sal, na medida certa.