domingo, 13 de fevereiro de 2011

Parenti Serpenti

Eu tinha apenas 17 anos e não passava pela minha cabeça os conceitos de casamento e filhos, quando o filme de Mario Monicelli (Parenti Serpenti) foi lançado em 1992.

Parecia ser uma típica história familiar dos nossos tempos modernos, em que quatro irmãos vão passar as festas de fim de ano na casa dos pais e recebem um presente de Natal inesperado: eles precisam decidir quem vai cuidar dos progenitores já idosos. É neste momento que o espírito natalino dá lugar às antigas e mal-resolvidas brigas de família e o restante dos 105 minutos do filme transcorrem de maneira, mais ou menos, previsível até chegar a um clímax, no mínimo, macabro.

“Você escolhe os amigos, mas não os parentes”, é o que dizem e todos temos nossas rusgas e contendas com algum primo, tio, cunhado ou irmão. Mas arquitetar um plano tão sórdido como fizeram Lina, Milena, Alessandro e Alfredo é um pouco extremo...

Bem, até se unir com um homem de outra casta-religião-e-cultura e receber um dote inesperado de casamento: dezenas de novos parentes, embrulhados em metros e mais metros de turbante e dupatta! E alguns deles debaixo do mesmo teto, por duas semanas.
Que eram, apenas, pra ser umas férias para celebrar o solstício de inverno (Lohri) na casa dos sogros, mas acabaram sendo 15 dias em que as questões mal-resolvidas entre mim e o resto da família do meu marido vieram à tona.

Porque, durante aquele "período de descanso" em Nova Déli, sempre tinha alguém com uma opinião sobre como eu deveria cuidar da minha própria vida, de como era quase obsceno eu acordar depois do meio-dia (apesar da diferença de fuso de mais de 5 horas e do fato da minha Pequena não dormir antes das 3h da mandrugada), do comprimento exato para o meu cabelo e meus kurtis, da falta de propósito em eu usar meus anéis nos dedos dos pés, do quão saudável ou não era a chupeta pra minha filha (ouvi, inclusive, um sermão sobre isso da gerente do banco onde meu sogro trabalha), dos horários e do tipo de comida que deveria servir ao meu marido (!), da maneira que tinha de preparar meu risotto de cogumelo, da hora apropriada pra dar o banho na minha menina, etc...

Desta vez, não consegui escapar nem dos comentários da criadagem e até a cozinheira não se conteve no seu cubículo cheio de panelas engorduradas com ghee e manchadas com turmeric e me perguntou por que eu não estava esquentando a barriga perto do fogão! Afinal de contas, era meu dever, como primeira nora, alimentar os membros daquela família e tomar conta da casa.

Dezenove anos depois do lançamento do filme, a história de Monicelli não me parece mais tão sórdida e macabra assim. Já é bem difícil conviver com nossas próprias serpentes de sangue (que não escolhemos mas que cercam nosso ninho desde a infância), mas ter que engolir, por anos a fio, a peçonha de primos, tios, cunhados, irmãos e pais que ganhamos por lei pode exigir um pouco de paciência e muita inspiração nas tragédias italianas modernas.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O Inocente

Um casamento às pressas, um bebê de quem todos querem tirar um pedaço, um par de sogros desvairadamente religiosos e conservadores, uma familía adjacente intrometida e opinadora e dez meses longe do Sub-continente indiano quase me fizeram esquecer a principal razão de eu ter vivido quatro longuíssimos anos neste país: a minha paixão irracional (e provavelmente cármica) pela sua singular, pungente e dolorosa comida vegetariana.


Mas bastou eu ter à minha frente a bandeja da Air India (contendo aquela refeição quentinha e perfumada com as ainda misteriosas especiarias indianas, embrulhada sem muito capricho num papel de alumínio e recheada com os ingredientes mais simples e saborosos do reino vegetal), para um sinal neurológico ser disparado e colocar todos os órgãos do sistema digestivo em prontidão. Era puro reflexo de um estômago já condicionado aos prazeres do paladar, vislumbrando os portais desse Paraíso da Ásia Meridional, a apenas uma garfada de distância.

Assim que meus olhos reconheceram o conteúdo da vianda - palak paneer (espinafre e queijo cottage) num canto, sabzi (vegetais) no outro e um bocado do fumegante arroz basmati ao centro –, o coração disparou, a boca começou a salivar e os movimentos peristálticos de contração e relaxamento musculares se iniciaram.

E o resto são detalhes íntimos de uma relação que poucos brasileiros comedores-de-carne entenderiam. Catorze entediantes anos como vegetariana no Brasil foram recompensados com outros tantos de muita emoção na Índia: foram semanas de intenso prazer e dias da mais torturante crise de diarréia.

E é aqui que entra em cena o terceiro adjetivo para a comida indiana (aquele responsável pela dor), porque o Paraíso é, de fato, um conceito utópico e minha estada neste lugar “acima da superfície terrestre, onde se vive harmonicamente e sem conflitos” sempre foi muito breve neste país.

Eu sabia (sentada satisfeitíssima no meu assento do voo AI-116 de Londres a Nova Déli) que a queda até o Purgatório era uma questão de tempo. Aquelas exóticas especiarias que entraram tão cheias de sabor e pungência pela boca, deixariam meu organismo da mesma forma e logo o único inocente em todo o processo digestivo teria que expiar, sozinho, o pecado da gula cometido por outras partes do corpo.

Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, sentada ou acocorada num banheiro da Índia (escuro e em condições precárias de higiene), meu pobre e inocente orifício excretor pagaria pela purificação da carne.

Sabia que, durante tal processo doloroso, acabaria prometendo moderação...
Até, novamente, vislumbrar os portais do Paraíso asiático e esquecer todas as provações passadas pelo Inocente.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Home, bitter home

Sete horas da manhã e eu já estava acordada de uma noite mal-dormida, por causa da minha filha ligeiramente gripada na noite anterior. O corpo ainda pedia descanso, mas não havia tempo a ser encontrado para reclamações.

Malas prontas e deixamos nossa cidade três horas mais tarde, rumo à capital do Rio Grande do Sul. Cento e vinte minutos na estrada e chegamos ao aeroporto internacional de Porto Alegre para enfrentar outros 45 na fila do check-in. Ainda faltavam 7200 segundos para esperar até que nosso voo para São Paulo decolasse do solo gaúcho.

Ainda bem que a minha menina dormiu no avião.

Em Guarulhos, ela também se comportou maravilhosamente bem, das 17h às 23h25! Mamava direitinho, mas fazia cocô além do normal. Acho que sentia o nervoso da mãe por cruzar o Oceano Atlântico em 3 voos sozinha, com uma menina de colo, um laptop e uma sacola não-tão-de-mão assim.

Não consegui um carrinho de bebê da companhia aérea, mas fiquei extremamente feliz por conseguir um lugar para sentar perto do fraldário. Era ali (num espaço em torno de 3mx1m) que nós duas, com toda a nossa bagagem, nos aliviávamos. Eu, numa privada minúscula para crianças. O difícil mesmo foi passar aquelas seis horas e meia, sentir os ponteiros se arrastando lentamente pelo relógio sem ter muito o que fazer. Pelo menos, a minha menina se divertiu com os vários outros passageiros que iam, vinham e se sentavam ao nosso lado.

No avião, ela pegou no sono sem muito drama. Inicialmente e até o aviso de apertar os cintos ser desligado, no meu colo; depois, no berço montado para ela, na minha frente. E, apesar de sentar na primeira fila da classe econômica e poder esticar um pouco mais as pernas, eu não conseguia encontrar uma posição confortável para dormir. Foram doze longas horas virando de um lado para o outro, me afundando e me ajeitando no assento, contando carneirinhos, meditando, tentando ignorar o barulho nas áreas de turbulência e o ronco dos demais passageiros... até que as luzes foram acesas e o café da manhã foi servido. Já estávamos em algum ponto da Europa, perto da Alemanha e mais perto do Reino Unido.

Mas antes, tivemos que passar pelo terceiro security control: abrir malas, deixar o laptop à mão, esvaziar os bolsos, tirar o relógio, o cinto e até os sapatos, para logo a seguir colocar tudo no lugar, exausta e sozinha com uma criança de colo.

Felizmente, em Frankfurt, a espera pelo próximo voo era de apenas quatro horas. E, pelo menos, a minha menina estava descansada, de bom humor e atraindo a atenção de muita gente, inclusive de conterrâneos a caminho de algum lugar do mundo. Foi só isso o que me salvou, o que me manteve acordada e alerta por aqueles 240 minutos: contar minha longa história para uma búlgara que vivia há duas décadas no Brasil e que viaja pela Europa, de férias, com a filha brasileira.

Esqueci do tempo, esqueci da fome, esqueci do banheiro e quase esqueci do nosso voo. A meia hora de partirmos, me dei conta dele e saí correndo pelos corredores do maior aeroporto da Alemanha à procura do portão 25A para nosso embarque imediato e preferencial! Sim, pelo menos em Frankfurt, uma mãe sozinha e com uma criança de colo ainda tem prioridade na fila.

E, mais uma vez, a minha menina adormeceu no avião.

Só mais 70 minutos e estaríamos aterrissando na Inglaterra... E foi com esse pensamento, carregado de otimismo e alívio, que pedi um copinho de plástico de rot Wein ao comissário de bordo. Estava tão cansada que não precisei de mais de alguns goles para sentir o corpo amolecendo e a cabeça girando. Ou isso ou foi realmente um sonho o fato de eu ter ouvido o mesmo comissário de bordo dizer “obrigado”, ao receber de volta o mesmo copinho de plástico (agora vazio) de rot Wein, e me contar que era um dançarino brasileiro profissional com cidadania alemã fazendo bico na Lufthansa! Deve ter sido um sonho...

Pelo menos, estávamos acordando em Londres. O pesadelo parecia estar prestes a acabar, depois que o funcionário da Imigração carimbou nossos passaportes e não pediu que eu fosse à sala reservada para o Departamento de Saúde e apresentasse um teste negativo para a tuberculose. Só não tive muita ajuda dos cavalheiros ingleses na hora de levantar minha mala da esteira e colocá-la no carrinho. Mas mostrei para eles a força da mulher brasileira e fui empurrando as bagagens em direção à Exit com o coração batendo rápido e cheio de antecipação para rever... para rever... para rever... o ma-ri-do...

Where the f*** is he at? That piece of s***!!!

Foram outros 45 minutos no Heathrow, esperando pelo meu marido atrasado e perdido no terminal errado do aeroporto. Um autoproclamado viajante profissional! Só não há como proclamar e descrever as palavras que eu (suja, faminta, cansada e louca pra ir no banheiro) gritei para aquele homem que dizia sofrer tanto com nossa falta!!!

Pelo menos, estávamos a poucos quilômetros de casa.
Era apenas uma questão de minutos para abrir a porta e encontrar...
Uma bagunça e a porra da geladeira vazia!!!!