Onde mais seria possível ir numa farmácia e adquirir comprimidos avulsos ou picolé de gengibre, na mesma lojinha? Ou pagar para andar numa lata enferrujada e caindo aos pedaços, chamada de ônibus?
"Hotel", aqui, significa restaurante e para encontrar um quarto para passar a noite deve-se perguntar por uma "Guest House".
Nas "Backeries" da Índia tudo o que não se encontram são pães (o que, para os indianos, é o chapati do dia-a-dia), apenas chips feitos de banana frita extremamente picantes. Também há similares das nossas rapaduras e cocodas chamadas, respectivamente, de chikki e coconut chikki.
Outra peculiaridade da Índia é o intervalo de 15 minutos no meio de uma sessão de cinema. Para os filmes locais (que duram, no mínimo, 4 horas e nos quais os heróis desafiam todas as leis da física moderna), é até compreensível; mas para um filme hollywoodiano de pura adrenalina e apenas 90 minutos é um balde de água fria.
Mas o que vale a pena são os comerciais (sempre de jóias) que rodam nesses intervalos. Tem um, em especial, que me arranca boas risadas. É sobre o típico casamento arranjado entre os pais dos noivos. A noiva, vestida rica e lindamente, tem a cabeça levemente baixa e olhar distante, resignada (afinal, é mais uma obrigação social do que uma verdadeira escolha pessoal). Então, uma bandeja cheia de colares, anéis, pulseiras de ouro aparece na tela e lê-se que o casamento tem suas próprias recompensas!
A noiva, então, sentindo-se plenamente recompensada, abre um imenso sorriso para o noivo (sempre de bigodinho, sinal de virilidade por aqui). Pelo menos, eles não são hipócritas e sabem que o dote é quase tudo para um bom casamento.
Mas, para mim, o fascínio diário são os sáris que extrapolam nas cores. E até mesmo para uma brasileira acostumada com a tropicalidade das roupas, nada se compara à criatividade e genialidade das indianas ao combinar cores, texturas e designs num único pedaço de pano, medindo cerca de 5 metros e enrolado ao corpo magnificamente. Não importa se num escritório com ar-condicionado de uma multi-nacional ou no trabalho árduo da contrução civil; se debaixo das chuvas monçônicas ou do calor abrasador da ìndia, os sáris permanecem, técnica e corretamente, envoltos do corpo dessas estranhas e fascinates mulheres; e as pregas simetricamente arranjadas. Infelizmente, preciso nascer indiana na próxima vida para aprender a vestir um deles.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Coisas (poéticas) da Índia
A Índia que inspirou a criação do Kama Sutra é capaz de gerar muita poesia.
Outra escritora que poderia ter descrito muito bem a Índia atual foi Clarice Lispector. Na verdade, ela o fez. Sem o saber, essa visionária colocou num trecho de "A Paixão Segundo G. H.", de 1964, a mais repugnante e banalizada realidade do país dos (verdadeiros) Maharajás.
"Cada olho reproduzia a barata inteira.
- Perdoa eu te dar isto, mão que seguro, mas é que não
quero isto para mim! Toma essa barata, não quero o que vi.
Ali estava eu boquiaberta e ofendida e recuada -
diante do ser empoeirado que me olhava. Toma o que eu
vi: pois o que eu via com um constrangimento tão
penoso e tão espantado e tão inocente, o que eu via
era a vida me olhando.
Como chamar de outro modo aquilo horrível e cru,
matéria-prima e plasma seco, que ali estava, enquanto
eu recuava para dentro de mim em náusea seca, eu
caindo séculos e séculos dentro de uma lama - era
lama, e nem sequer lama já seca mas lama ainda úmida e
ainda viva, era uma lama onde se remexiam com lentidão
insuportável as raízes de minha identidade. (...)
Olhei-a, à barata: eu a odiava tanto que passava para
o seu lado, solidária com ela, pois não suportaria
ficar sozinha com minha agressão. (...)
A barata é pura sedução. Cílios, cílios pestanejando que chamam".
Clarice, esplêndida e poeticamente, resumiu a miséria individual e coletiva de grande parte da Índia. Uma imensa colônia, pilhada e depois abandonada às moscas, baratas e ratos pelos colonizadores britânicos. Uma imensa colcha de retalhos, composta por diferentes reinos, línguas, povos e religiões e deixada para trás pela modernidade no tratamento de doenças medievais e na igualdade dos direitos humanos.
Edifícios parcialmente destruídos ou ainda não de todo construídos; ruas esburacadas; montes de lixo empilhados e banalizados pelos seres humanos.
Não é por acaso que baratas e ratos são quase animais de estimação! Assim como aves carniceiras. O que poderia ter influenciado uma das mais românticas peças teatrais de todos os tempos. Uma pena Willian Shakespeare não ter sido contemporâneo dos seus compatriotas britânicos que invadiram e conquistaram a Índia. Se o tivesse, talvez a Cena 5 do Ato 3 de "Romeu e Julieta" tivesse sido bem diferente. E a bela Capuleto não teria tido dificuldade em distinguir os cantos do rouxinol (nightingale) ou da cotovia (lark).
"JULIETE:
Wilt thou be gone? it is not yet near day:
It was the nightingale, and not the lark,
That pierced the fearful hollow of thine ear;
Nightly she sings on yon pomegranate-tree:
Believe me, love, it was the nightingale."
Por aqui, não importa se é noite ou se é dia. Não há rouxinol ou cotovia, mas corvos comedores de carniça. Ideais para a decomposição de uma grande cultura, mas ainda capaz de produzir poesia.
Acho, porém, que talvez os indianos devessem, sim, dar mais valor aos frutos de seu solo. Talvez devessem se inspirar no milenar Kama Sutra e cuidar mais da higiene (pessoal e ambiental) do corpo e não somente da alma. Lord Ganesh remove obstáculos do caminho, mas não a sujeira nociva de um bilhão de fiéis.
Supostamente escrita no seculo IV A.C., onde hoje está a sagrada cidade hindu de Varanasi (no estado de Uttar Pradesh), a obra de Vatsyayana tem, de fato e ironicamente, pouco a ver com um tratado sobre sexo. Apenas 20% do seu conteúdo (os mais populares no lado oeste do globo) é destinado às 64 posições sexuais. Os 80% restantes formam um compêndio sobre higiene pessoal e sobre como ser um bom cidadão.
Não admira que os próprios indianos dêem pouca atenção à arte do amor e permaneçam castos até trocarem as guirlandas do matrimônio, cobertos do pescoço ao tornozelos por panos e tabus.
Mas esse fascinante território indiano podia ter sido a pátria não apenas do autor de as "Regras do Desejo" (Kama Sutra, em sânscrito), mas também de Carlos Drummond de Andrade. Ah, se aquele mineirinho de Itabira tivesse vivido o suficiente para admirar o trânsito da Índia, em pleno século XXI, teria, certamente, mudado seu poema...
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma VACA
tinha uma VACA no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma VACA."
Nâo apenas uma, saudoso Drummond, mas várias. O rebanho inteiro. E todas sagradas. Às vezes, também há cabras (e seus pastores) na bucólica paisagem urbana de Bangalore. E não é difícil encontrar cachorros vira-latas nesse mesmo caminho. Mas o Carlos não sabia.
"Cada olho reproduzia a barata inteira.
- Perdoa eu te dar isto, mão que seguro, mas é que não
quero isto para mim! Toma essa barata, não quero o que vi.
Ali estava eu boquiaberta e ofendida e recuada -
diante do ser empoeirado que me olhava. Toma o que eu
vi: pois o que eu via com um constrangimento tão
penoso e tão espantado e tão inocente, o que eu via
era a vida me olhando.
Como chamar de outro modo aquilo horrível e cru,
matéria-prima e plasma seco, que ali estava, enquanto
eu recuava para dentro de mim em náusea seca, eu
caindo séculos e séculos dentro de uma lama - era
lama, e nem sequer lama já seca mas lama ainda úmida e
ainda viva, era uma lama onde se remexiam com lentidão
insuportável as raízes de minha identidade. (...)
Olhei-a, à barata: eu a odiava tanto que passava para
o seu lado, solidária com ela, pois não suportaria
ficar sozinha com minha agressão. (...)
A barata é pura sedução. Cílios, cílios pestanejando que chamam".
Clarice, esplêndida e poeticamente, resumiu a miséria individual e coletiva de grande parte da Índia. Uma imensa colônia, pilhada e depois abandonada às moscas, baratas e ratos pelos colonizadores britânicos. Uma imensa colcha de retalhos, composta por diferentes reinos, línguas, povos e religiões e deixada para trás pela modernidade no tratamento de doenças medievais e na igualdade dos direitos humanos.
Edifícios parcialmente destruídos ou ainda não de todo construídos; ruas esburacadas; montes de lixo empilhados e banalizados pelos seres humanos.
Não é por acaso que baratas e ratos são quase animais de estimação! Assim como aves carniceiras. O que poderia ter influenciado uma das mais românticas peças teatrais de todos os tempos. Uma pena Willian Shakespeare não ter sido contemporâneo dos seus compatriotas britânicos que invadiram e conquistaram a Índia. Se o tivesse, talvez a Cena 5 do Ato 3 de "Romeu e Julieta" tivesse sido bem diferente. E a bela Capuleto não teria tido dificuldade em distinguir os cantos do rouxinol (nightingale) ou da cotovia (lark).
"JULIETE:
Wilt thou be gone? it is not yet near day:
It was the nightingale, and not the lark,
That pierced the fearful hollow of thine ear;
Nightly she sings on yon pomegranate-tree:
Believe me, love, it was the nightingale."
Por aqui, não importa se é noite ou se é dia. Não há rouxinol ou cotovia, mas corvos comedores de carniça. Ideais para a decomposição de uma grande cultura, mas ainda capaz de produzir poesia.
Acho, porém, que talvez os indianos devessem, sim, dar mais valor aos frutos de seu solo. Talvez devessem se inspirar no milenar Kama Sutra e cuidar mais da higiene (pessoal e ambiental) do corpo e não somente da alma. Lord Ganesh remove obstáculos do caminho, mas não a sujeira nociva de um bilhão de fiéis.
Cuidado com as traças!
Começou como uma coceira boba perto do calcanhar direito. Umas bolinhas pequenas, com jeito de alergia.
Depois, o comichão se alastrou para a panturrilha e a perna esquerda. E, em poucos dias, os inicialmente inofensivos sinais de alergia tinham se transformado em imensas bolas vermelhas, cobrindo meus membros inferiores até a altura da cintura. Parecia que eu tinha sido picada por um enxame inteiro de mosquitos.
Naquele ponto, a conceira já tinha se tornado insuportável, e ainda vinha acompanhada de ardência, na hora do banho.
Mas não conseguia me lembrar de ter feito nada além do usual. Era o meu terceiro mês na Índia e continuava trabalhando no mesmo escritório empoeirado da FSL, dividindo meu quarto e banheiro com as mesmíssimas 3 outras pessoas e viajando para os projetos em Kundapura (na costa oeste do estado de Karnataka) nos ônibus “Volvo-Deluxe” de sempre...
Ah! Era isso!
Sim... Estava voltando... Ainda vaga.. A lembrança da minha recente volta de Kundapura. Sim... Estava de pés descalços e sem meia no meu assento “sleeper”, mais preocupada com o assédio de possíveis tarados do que com a higiene dos estofados dos bancos reclináveis.

Sim... O pano imundo que servia de cortina (usada em ônibus e trens para dar privacidade e propiciar o sono) estava me incomodando, assim como... Uma coceirinha no calcanhar direito. Damn it! Tinha sido naquela maldita viagem de 9 horas, sacodinho em cada buraco dos 474 quilômetros da estrada entre Bangalore e Kundapura que tinha pegado a tal alergia.
A questão do “onde” já tinha sido exclarecida. Eu precisava, então, descobrir o quê era e como dar fim àquilo. Havia se passado quase dez dias do meu retorno e nem sinal das bolas vermelhas, da coceira ou da ardência darem trégua. Tudo bem que eu não precisa me preocupar em esconder as pernas, já que elas deviam permanecer cobertas na Índia; mas o mal-estar entre as minhas colegas de quarto já era evidente. Eu tinha que vencer minha fobia de hospitais e medicamentos alopáticos produzidos no país e procurar um médico.Ou não. Sentar na sala de espera da emergência de uma clínica em Indira Nagar me deixou com dúvidas. E se eu pegasse outra peraba e saísse dali ainda pior?
Tarde demais... Estava tomando coragem para ir embora, quando ouvi meu nome ser chamado. Damn it!
No consultório do clínico geral (um homem de meia-idade e com feições amigáveis), expliquei a situação e expus o estado dos meus calcanhares. O médico pareceu tão alarmado que foi perguntando onde mais, no corpo, eu apresentava tais sinais, e pedindo que eu os mostrasse...
“Sem problemas”, pensei, com a convicção ingênua de que aqueles profissionais da saúde, em qualquer parte do mundo, eram seres vivos assexuados ou, no mínimo, acostumados a ver o corpo humano, fosse ele feminino ou masculino. Certo?
Bem, talvez nem todos. Fiquei intrigada quando ele começou a me perguntar se também tinha marcas da alergia nos seios e achei, por bem, terminar aquele exame nada ortodoxo por ali mesmo, antes que ele me pedisse para ver algo mais.
Deixei a clínica furiosa, mas praticamente como havia chegado. Com a exceção da receita para comprar SEIS diferentes remédios (incluindo um antibiótico – prática normal na Índia, para tratar qualquer resfriado) e do assutador diagnótico: o que eu tinha não era uma simples alergia ou picadas de mosquito, mas uma combinação de ambas. Eu tinha desenvolvido uma reação alérgica a bedbugs (traças!!!), pegos no super confortável modelo Deluxe dos ônibus da marca Volvo. Damn it!
Assinar:
Postagens (Atom)