terça-feira, 10 de agosto de 2010

Ma vie en rose

Desde que me entendo por gente, só me lembro de uma vez ter vestido algo cor-de-rosa, por vontade própria. Na verdade, eu “surrei” um vestido rosa-choque de algodão que havia trazido da Disney. Tanto que, depois de uns seis meses de uso contínuo, minha mãe (provavelmente aterrorizada de olhar para aquele trapo ambulante) resolveu dar sumiço no que restou dele. Mas foi o único.


Quando o assunto envolvia maquiagem, eu era igualmente desinteressada e até com um brilho bem clarinho eu já me sentia meio esquisita.
Mas eu tive uma boneca Barbie, a sua casinha e uma porção de roupas diferentes com as quais eu brincava e tinha devaneios até os quinze anos de idade. Foram momentos lúdicos que cultivei até entrar, em definitivo, no mundo dos adultos.

Aos trinta as coisas mudam.
Por mais que se esteja em forma, o corpo e a pele não são mais os mesmos da década anterior. A juventude ainda não está de todo perdida, mas já apresenta sinais de deterioração.

E, aos poucos, eu também fui mudando, assim que me tornei uma balzaquiana.

Primeiro foi o delineador indiano, o kajal.
Impossível ficar indiferente aos padrões de beleza de um país, quando se está há tanto tempo submersa em outra cultura. Mas o que realmente me fez aderir ao produto (à base de galena moída) foi o fim da minha estada de um mês numa instituição que ensinava ioga. Com a cabeça raspada, eu queria desviar a atenção das pessoas para os meus olhos e não pra falta de cabelo.

Em seguida, comecei a fazer uso da base, do pó compacto e do batom para atenuar as cicatrizes de acne e conseguir dar minhas aulas de inglês, com confiança, para os homens de negócios de Beagá. Cheguei bem perto de usar salto alto, mas esse doloroso objeto de desejo do sexo feminino ainda é incapaz de me seduzir.

A verdadeira transformação, no entanto, começou agora, com o nascimento da minha filha. Eu nunca quis outra Barbie aos trinta e cinco anos e sentia completa indignação quando algumas mulheres me diziam que era melhor ter uma menina, que era mais fácil de vesti-la e enfeitá-la!

Eu até que resisti bastante e ainda tento manter o azul, o verde e o amarelo no guarda-roupa da minha Pequena, mas há algo tão genuinamente infantil e inocente a respeito do rosa que acabou subjugando meu feminismo teimoso e me levando para o estereótipo dominante.
Ainda mais com aquelas bochechas rechonchudas, imensos olhos castanhos e longos cílios de boneca.

Ela fica linda de qualquer jeito, mas essa cor simplesmente tomou conta da casa, do banheiro, do chão com seus brinquedos espalhados e do meu armário... Vinte anos depois daquele primeiro vestido rosa-choque de algodão e influenciada pela minha filha, me dei o direito a esta indulgência e a dar vazão à minha negligenciada menina interior e, atualmente, durmo com uma confortável camisola rosa-bebê, com ursinho bordado e tudo.

Minha vida pode não ser um mar de rosas, mas foi invadida por todas as matizes dessa cor.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Até que a morte nos separe

Não. Essa não foi a promessa mútua que fizemos no altar, diante de uma imagem melancólica e cabisbaixa de Jesus Cristo.
Pelo menos, não que eu tenha tido conhecimento, pois não passamos nem perto de uma igreja católica no dia do nosso casamento religioso.
Assim, se eu tiver consentido com qualquer coisa num idioma que não entendia foi a mais pura ignorância e o desejo iminente de tirar aqueles sininhos dos pulsos e mais de três quilos de tecido bordado do corpo.


Mas o que eu realmente ignorava era pra quem, de fato, esse prometimento formal é dirigido: para o fruto da união, a prole. O companheiro ou cônjuge pode entrar e sair das nossas vidas, mas filho é para sempre.

E ninguém nos avisa.
Nem o padre, nem o sacerdote sikh, nem nossos próprios pais (talvez por receio de que possamos mudar de ideia e enriquecer a indústria dos contraceptivos pelos próximos trinta anos), mas, ao colocarmos uma criança no mundo, também nos tornamos contraentes de um acordo consanguíneo que só se expira no momento que uma das partes deixar de existir.

É claro que o contrato nos reserva incontáveis horas de felicidade,
mas temos uma cota igualmente grande de preocupações, sacrifícios, angústias, medos, e nossas responsabilidades não terminam quando eles se formam, arrumam um emprego e saem de casa. Cada fase pela qual os filhos passam traz junto uma série de problemas, impressos numa fonte bem miudinha, de leitura difícil, no verso do documento. E não existe forma legal, natural ou moral de rescindir tal contrato de adesão.

Por isso, UMA só pra mim basta...

Para cuidar e confortar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença
até que a (minha) morte nos separe.
Porque a minha menina não pode me deixar antes!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Menina Classe A

A indústria cinematográfica é muito parecida com a da moda e, de tempos em tempos, relança produtos que deram certo no passado, com  o layout atualizado.


É por isso que, neste ano, um grupo de mercenários e ex-militares de elite do Exército dos Estados Unidos foi ressuscitado dos seriados de TV da década de 80 e transformado em filme pela 20th Century Fox.

Produzido pela rede de televisão americana NBC, o “Esquadrão Classe A” ficou no ar por cinco temporadas, de 83 a 87, e teve semelhante popularidade no Brasil, quando o SBT passou a exibir as aventuras de Hannibal, Cara de Pau, B. A. e Murdock nas noites de sexta-feira.
A equipe de comandos especiais foi um fenômeno tão grande no país que virou quadrinhos, álbum de figurinhas e bonecos de brinquedo.
E, vinte e poucos anos depois, o galã do quarteto original, Dirk Benedict, ainda colhe os frutos do sucesso da série e está em turnê pelos palcos britânicos com a peça “Columbo: Prescription Murder”.

Já a mais recente versão dos ex-Rangers não parece ter agradado os antigos fãs nem conquistado novos (mesmo com a presença sedutora de Liam Neeson), e o desempenho comercial do filme tem sido aquém das expectativas.

Pessoalmente, achei a estória explicada demais, tirando a oportunidade do espectador preencher as lacunas sozinho.
Mas a minha filha adorou o estardalhaço das cenas de ação e, toda vez que eu revisava o arquivo para o DVD, ela atravessava nossa sala de estar com a rapidez e desenvoltura de um verdadeiro boina-verde. Não importava se o terreno fosse acidentado ou repleto de obstáculos, de onde ela estivesse sentada ela jogava o corpo pra frente até ficar de barriga no chão e rastejava em disparada, na direção do meu computador.

E nem mesmo o pouco de pó e sujeira acumulados no dia anterior e impregnados, então, na parte frontal das suas roupas conseguia diminuir seu sorriso de contentamento, ao chegar na beira do sofá onde eu trabalhava, levantar a cabeça e ouvir, bem de perto, a clássica trilha sonora do seriado.

Se todo esse exercício não for um ensaio pra ela ser parte de outra equipe de comandos especiais, daqui a vinte e poucos anos, pelo menos a minha filha já está me ajudando a limpar a casa.

Para assistir à abertura da série de TV, visite o site:
http://www.youtube.com/watch?v=q1og3LqxiDg