terça-feira, 15 de março de 2011

Uma Produção B&J

Em 1972, o então desconhecido e pouco experiente diretor Geoge Lucas travava uma luta contra toda a indústria cinematográfica de Hollywood para escrever, produzir e lançar um despretensioso filme sobre sua adolescência durante o final dos anos 50, numa pequena cidade da Califórnia. Filmado com um orçamento baixíssimo e um roteiro extremamente incomum para a época, American Graffiti foi um sucesso de bilheteria, arrecadando cerca de US$ 100 milhões e tirando o jovem cineasta do anonimato.

Isso pode ser visto e ouvido diretamento do diretor, no DVD que marca o aniversário de quase 40 anos da película. Mas não foi a história bem-sucedida deste garoto de Modesto que chamou minha atenção, e sim uma de suas últimas observações feitas durante o comentário do filme sobre algumas das gratas surpresas que se consegue ao se lançar numa empreitada dessas. E não consegui evitar a analogia com minha situação atual.

Neste 7 de março, fez um ano que nossa pequena família de três desembarcou nesta ilha já tão cheia de imigrantes (segundo as estatísticas oficiais, eles são um em cada cinco residentes legais da Inglaterra), não em busca de uma vida melhor, mas de uma vida mais tranquila, longe principalmente dos parentes do marido. E mesmo sendo ambos experientes em viver no exterior, criar sozinhos um bebê de apenas quatro meses (afastados de qualquer rosto amigo, fora da terra natal e sem o conforto da língua materna) tem sido a decisão mais difícil que já tomamos.

E uma luta constante, travada sem a ajuda da família (a minha, é claro), sem os conselhos dos amigos numa posição semelhante e sem a simpatia da população local xenófoba. Aqui, também, os recursos humanos e financeiros são limitados, não há tempo para ensaios e não conseguimos seguir o roteiro original, porque nossa filha desde cedo mostrou sinais de ter personalidade própria e de querer atuar seu papel como lhe dá na veneta.

Por isso, vamos improvisando à medida que as coisas inesperadas da vida vão surgindo a cada passo que damos no árduo caminho da mater/paternidade. Não é fácil e quando finalmente temos uma fase atrás de nós, uma nova, mais barulhenta e emporcalhada aparece no horizonte. E sou um exemplo clássico (sempre dando dores de cabeça aos meus pais) de que elas são quase sem fim como a tal linha que separa o céu da terra...

Mas há as gratas surpresas que fazem cada noite mal-dormida, cada choro de birra, cada crise de pirraça da nossa B&J Produção valer muito a pena: nos momentos em que ela entende e reage (na maioria das vezes, contrariamente) ao que falamos; quando nos acorda nas manhãs das noites mal-dormidas, ainda sonolenta mas cheia de carinho para oferecer; e principalmente quando demanda meu colo para sentar e poder lamber a ponta do meu nariz ou beliscar minhas bochechas.

No entanto, ela é certamente digna de um Oscar pela melhor e mais inusitada performance na hora das refeições. Não acredito que haja muitas crianças que comem, desde os 9 meses de idade, espinafre com ricota, risotto de cogumelo, pasta al pesto e várias iguarias apimentadas da Índia.

Eu não preciso esperar 40 anos para dizer que a minha filha já é meu maior orgulho e que ela nos tirou não do anonimato, mas de uma existência quase medíocre. E, apesar de não carregar meu sobrenome, ela é verdadeira e legitimamente uma produção sikh-brasileira independente, de baixo orçamento e sem nenhuma experiência.

sexta-feira, 4 de março de 2011

A Desperate Housewife

Andei desaparecida nas últimas semanas porque meu dia estava tendo mais do que 24 horas. Para os outros.

Além de mãe-e-dona-de-casa (a função de esposa passou a ser exercida uma única vez a cada sete dias, quando meu corpo está exausto e quase inerte na cama e minha mente não tem mais energia para inventar desculpas), tenho trabalhado cansavelmente como tradutora e revisora de filmes e séries de TV das 9 às 5. Mas das 9 da noite às 5 da manhã, quando minha filha finalmente me dá uma trégua para ser a profissional que eu costumava ser antes de ela surgir no meu mundo.

E por falar na gravidez, foi também por essa época a última vez que devo ter conseguido dormir por longas 8, 9, 10 horas, sem interrupção, choro de fome ou vontade de ir ao banheiro. Trinta e nove semanas e dezesseis meses depois (mas ainda com muito do peso ganho durante a gestação), minha vida está de pernas (gordas) para o ar.

Não sei se tenho o direito de reclamar. Sou duplamente afortunada porque tenho um marido que pode sustentar a família para que eu possa ficar em casa e cuidar de nossa filha e tenho um trabalho como freelancer que me dá muito prazer (às vezes mais do que o de esposa) e as condições de exercê-lo de casa para que eu possa cuidar da nossa filha. Só não tenho o tempo para fazer as duas coisas bem.

Passo as horas claras do dia limpando, cozinhando, aspirando, lavando, alimentando, dando banho, trocando fraldas, tirando cochilos depois do almoço e tentando não perder a paciência, a esportiva e a razão e gritar com os dois únicos membros da minha família neste continente. Já nas horas sem sol, fico sentada diante do meu computador tentando me concentrar no episódio à minha frente e procurando esquecer a culpa por não ter levado minha menina ao parque no primeiro dia sem chuva em semanas.

E o clima neste reino frio, cinzento, depressivo e cheio de bolor é realmente digno das tragédias de Shakespeare. Não sei se é pior tentar ser mais forte que a Natureza e desbravar os espaços abertos e melancólicos desta terra ou testemunhar a vitória final Dela sobre o Homem e ver colônias inteiras de fungos filamentosos se alastrando pelos espaços úmidos, quentes e internos da casa.

Melhor mergulhar nas obras de ficção que sou paga para assistir e traduzir e escapar um pouco da realidade. O problema é que elas têm se parecido tanto com a minha! Talvez eu esteja apenas trabalhando demais. Ou me identificando excessivamente com a personagem de Felicity Huffman (Lynette Scavo) em Desperate Housewives que, na temporada 7, aparece com mais um bebê para cuidar. (Quem consegue manter aquele corpo ou a sanidade ou tomar banho diariamente depois de cinco filhos?) Ou talvez eu ainda esteja muito impressionada com algumas falas de Tina Fey no filme Date Night (traduzido como Uma Noite Fora de Série), mas o fato é que na maior parte do tempo que dedico à minha família, tenho uma vontade (crescente e quase irresistível) de largar o que estou fazendo e sair correndo porta afora. E só voltar depois de uma semana...

Não sei quantas temporadas eu vou aguentar nesse papel de mãe-dona-de-casa-e-ocasionalmente-esposa desesperada e em extrema necessidade de tempo para si própria. Não para me empanturrar com risotto de cogumelos nem para ficar num quarto escuro de hotel, tomando um refrigerante dietético. Mas simplesmente para dormir umas 12 horas sem interrupção alguma. E colocar o banho em dia.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Um pra lá, dois pra cá

Ultimamente, não tenho achado nada mais apropriado para definir o casamento (ou uma relação estável entre duas pessoas) do que as danças de salão.

Não importa se é algo tradicional e conservador como a valsa ou a polca, se é movido por profundas paixões como o tango, se é mais temperado como a salsa, ou se é um sensual balançar de coxas como a gafieira; as danças de salão são sempre executadas socialmente por um casal e o sucesso dessa executação depende da sintonia entre os dois membros do par.

Mesmo sem uma mesa de jurados nem um auditório para aplaudir e dar seu voto, se eles não estiverem afinadíssimos, acabam por perder pontos no relacionamento. E tudo se complica um pouco mais quando há um terceiro dançarino, porque é preciso ensiná-lo os passos de uma dança que ainda se está aprendendo.

Há quinze meses, nossa menina se juntou à dupla e continuamos a nos sentir extremamente inseguros na pista do salão. Será que estamos fazendo certo? Será que estamos lhe ensinando o que é certo? Será que estamos lhe dando muito amor e colo e tornando-a uma menina emocionalmente dependente?

Sete semanas de férias no Brasil e outras duas na Índia foram uma prova difícil e quase colocaram 10 meses de aprendizado em risco de desclassificação. Num ambiente estranho e com pessoas pouco conhecidas, ela voltou a dormir comigo, na mesma cama. Era como dar um passo pra frente e dois pra trás, estragando todo o ensaio anterior. E eu sinceramente temia que precisaríamos de um longo tempo para retomar do ponto onde havíamos parado.

Felizmente, minha filha provou ter um talento que nós dois desconhecíamos e acabou nos surpreendendo alguns dias após voltarmos pra casa, em definitivo. Agora, não apenas ela só dorme no próprio berço, como já mostra sinais de estar incomodada com a lâmpada de cabeceira acesa e de querer a luz apagada na hora de se entregar ao sono. Além disso, depois de, acidentalmente, jogar pra fora do carrinho as duas únicas chupetas brasileiras que havíamos trazido para a Inglaterra, ela deu mais um passo em direção à independência emocional e hoje é uma criança livre de qualquer calmante artificial aceitável pra sua idade, seja ele um bico, um polegar ou a ponta de um travesseiro.

Mas o que de fato colocou nosso trio amador de dançarinos de volta às pistas de dança e com boas chances de arrancar aplausos da plateia é a coreografia solo da minha filha: apesar de ainda parecer um pequeno ser com alto grau de embriaguez, ela já dá seus próprios passos sozinhas e tão logo reconheça o ritmo de uma valsa, tango, samba ou bhangra mostra o gingado que tem nos pés.