sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A Medalha de Prata

Eu só vim conhecer Andy Murray no começo de julho de 2012, quando a imprensa britânica iniciava sua intensa campanha para promover (para as grandes massas incultas - eu incluída) a conquista deste escocês que entraria para a história do tênis nacional.
Segundo as manchetes dos jornais e as chamadas na TV, o jovem de 25 anos era o primeiro, em mais de 70 anos, a colocar o Reino Unido numa final de Wimbledon. Ou seja, desde 1936 (em 38, Bunny Austin conseguiu apenas o segundo lugar), quando Fred Perry venceu o torneio mais antigo e prestigiado do mundo pela última vez, a bandeira da Union Jack não era içada no pódio daquele estádio.
Mas o garoto de Dunblane que havia sobrevivido ao massacre na Escola Primária do vilarejo, em 1996 (no qual 16 crianças e uma professora foram mortas a tiros por Thomas Hamilton), não escapou à carnificina esportiva que tomou conta da quadra central de Wimbledon, no dia oito de julho de 2012.
Ali, do outro lado da rede, a experiência de Roger Federer (com, então, 16 títulos em Grand Slams) viravam o jogo contra um homem e toda a sua nação de maneira tão elegante e comedida que parecia que o suíço era desprovido de qualquer sentimento. Até o ponto final, quando Federer desabou no chão em lágrimas e retribuiu os aplausos da plateia com vários dos seus cativantes sorrisos.
Quem também chorou muito com o resultado foi o próprio Murray, que sentiu ter desapontado quinze mil amantes do esporte em Wimbledon e outros quinze milhões de espectadores que assistiam à partida pela TV e o incentivavam com palavras de apoio do tipo Go Andy! Mas, num discurso emocionado antes da entrega dos troféus, o escocês consolou os fãs britânicos dizendo que estava próximo de um título.
Parecia um presságio.
Andy estava mais perto de uma vitória do que todos podiam imaginar.
Menos de um mês depois da final do Torneio, os dois se encontrariam novamente no mesmo campo de batalha, a sudoeste de Londres. Mas, desta vez, o prêmio que estava em disputa era uma medalha olímpica. E o jovem Murray lutou muito em uma hora e 56 minutos de jogo e mereceu cada uma das seis gramas de ouro da peça de metal que conquistou para pendurar no pescoço.
Suas lágrimas, naquele domingo, pareciam mais de alívio do que de alegria, pelo fim da responsabilidade de atender às expectativas de mais de 60 milhões de britânicos. No dia cinco de agosto de 2012, Andrew Murray se tornava o primeiro cidadão da Grã Bretanha a ganhar uma medalha de ouro no tênis masculino, desde 1908. E a primeira pessoa que ele foi procurar na arquibancada para dividir sua vitória não foi o pai (com quem viveu desde os 9 anos, depois da separação dos progenitores) nem a mãe (ex-jogadora e treinadora do esporte na Escócia), mas a namorada Kim Sears.
E foi naquele momento que esta brasileira chorou.
Chorei por Judy Murray. 
Chorei porque também sou mãe e sei das coisas que fazemos ou deixamos de fazer por eles; chorei pelas noites mal-dormidas e pelos dias do mais debilitante cansaço; chorei pelas alegrias e tristezas que nos dão; e chorei pelos erros que cometemos e cometeremos, imaginando ser o melhor para nossas crianças.
Sim, Judy pode ter sido uma mãe severa e uma profissional rigorosa, pode ter tido demasiada influência no filho e pode ter tomado as decisões erradas que atrasaram a carreira de Andy, mas, naquele dourado domingo de agosto, ela ficou com o amargo segundo lugar.
E foi por isso que eu chorei.
Não importa quanta dedicação e amor coloquemos nesta relação, chega um dia, na vida de nossos filhos, que ficamos apenas com a medalha de prata em seus corações.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Alguns dias são melhores que outros

Paul David Hewson conheceu Alison Stewart aos quinze anos, em Dublin, 1975, e os dois acabaram se casando sete anos mais tarde.
Três décadas depois e quatro filhos em comum, os dois continuam juntos. Mas, certamente, durante todo esse tempo e com uma família tão numerosa, Bono deve ter entendido que alguns dias são melhores que outros.

Some days take less, but most days take more
Some slip through your fingers and onto the floor
Some days you're quick, but most days you're speedy
Some days you use more force than is necessary
Some days just drop in on us
Some days are better than others
Some days you wake up with her complaining
Some sunny days you wish it was raining
Some days are sulky, some days have a grin
Some days have bouncers and won't let you in
Some days are honest, some days are not
Some days you're thankful for what you've got
Some days you wake up in the army
And some days it's the enemy
Some days are work, most days you're lazy
Some days you feel like a bit of a baby
Lookin' for Jesus and His mother
Some days are better than others
Some days you feel ahead
You're making sense of what she said
Some days are better than others
Some days you hear a voice
Taking you to another place
Some days are better than others

Eu só tenho uma menina e meu casamento recém fechou seu terceiro ano, mas eu também sei o quê o humor flutuante de uma criança pode fazer nas vinte e quatro horas do meu dia.
Quando ela faz manha para tirar o pijama e colocar uma roupa assim que acorda; ou a mesma pirraça para escovar os dentes de manhã e à noite; quando chora para pentear o cabelo;  quando abre um berreiro para não tomar banho e, depois, outro para não sair dele; quando tenho que ir atrás dela com uma colher cheia de comida, implorar para ela comer alguma coisa e ameaçá-la de não dar a mamadeira naquela noite; ou quando tenho que ser firme, ouvir uma choradeira e dizer que o chocolate acabou; quando ela pinta as paredes da casa que alugamos ou entope os brinquedos com massinha de modelar; quando ela não consegue e também não me deixa dormir à noite nem no meio da tarde.
É claro que tenho dias melhores que outros e, em muitos, sou extremamente grata por ter na minha vida um ser tão cheio de amor, curiosidade, inteligência, energia e de uma lógica infantil maravilhosamente singular.
Mas, nos outros, eu peço que eles terminem bem rápido, porque me sinto um pouco como um bebê, procurando pelo consolo de Jesus e da Virgem Maria.

A little splash of happiness

Estávamos todos no carro, a caminho de Harrow, e o sol parecia um pouco acanhado, mesmo num agradável e ensolarado fim de tarde de junho. Minha filha, na sua maravilhosa confusão linguística e sempre muito conversadora, disse do seu assento no banco de trás do carro que o "sol play hide and seek co' nuvem." Ou seja, o sol estava brincando de esconde-esconde com os imensos conjuntos de partículas de água suspensos no céu de Hertfordshire.
E este foi um breve momento feliz que eu tive naquele dia; um curtíssimo período no espaço e no tempo em que sorri para mim mesma cheia de um contentamento passageiro.
Pois assim parece ser a mais real e tangível noção de felicidade que podemos ter: a de uma sensação boa mas extremamente fugaz. Ou, nas palavras da escritora escocesa Isla Dewar em seu livro "The Consequences of Marriage": um pequeno respingo.
E um respingo geralmente sentido enquanto fazemos algo que gostamos.
Como tomar um banho morno no final de um dia cansativo; comer um pedaço de pão quentinho com uma generosa porção de manteiga derretendo; dividir a cama de casal com a filha, tirando um cochilo no meio da tarde; ficar mesmerizada com uma torrente de palavras em três idiomas dessa mesma menina; ter um vislumbre do céu azul e sentir o brando calor do sol na pele depois de várias semanas de tempo nublado; ouvir os pingos da chuva batendo na janela de casa; saborear chocolate e vinho tinto no café da manhã.
Sim, logo pela manhã, como fez e ponderou a respeito a personagem septuagenária da tal obra de Isla Dewar, Bibi Sanders, que levou uma vida difícil mas muito intensa. Segundo sua lógica de mulher sábia que teve cinco filhos e um casamento de 40 anos, se ambos fazem bem para a pressão sanguínea, por que limitar seu consumo só pela noite? Por que nos conter, nos restringir, nos aprazar?
Já que ser feliz se resume a apenas alguns respingos efêmeros numa longa jornada de 50, 60, 70 anos, vamos entornar um balde deles diariamente, fazendo o que nos enche de contentamento e nos coloca um largo e genuíno sorriso no rosto. Vamos brincar de esconde-esconde com nossas crianças e com o sol e com as nuvens e com o que mais elas descobrirem para nos encharcar de felicidade