terça-feira, 4 de outubro de 2011

Lições do Setembro Passado - Parte I

Nunca pensei que minha história fosse única. A maternidade acontece com quase todas as mulheres e bate à porta mesmo das que não sonhavam, não planejaram nem se preparam para exercer tal função.

Também nunca pensei que minha situação fosse singular. Não é preciso ir muito longe (aqui na Inglaterra) para encontrar mulheres de outras nacionalidades que estão criando seus filhos num país estranho e sem a ajuda de familiares por perto.

No edifício contíguo ao nosso, mora uma pequena família de imigrantes nigerianos: os pais e duas crianças - uma ainda de colo. E, invariavelmente (faça sol, chuva, frio ou calor), vejo aquela mãe passando em frente à janela da minha cozinha e, sofregamente, descendo e subindo um lance de escadas com um carrinho abarrotado de sacolas, mais a menina e o bebê.
Ela não tem um sorriso no rosto nem a cabeça erguida.
Na verdade, os três parecem ser bem quietos e não consigo deixar de imaginar que o silêncio seja o reflexo de uma vida tão melancólica quanto um dia nublado de outono em setembro... Ou talvez seja apenas o vento gelado soprando e impedindo que eles sorriem. Ou pode ainda ser como a música do REM, escrita pelo bateirista Bill Berry (é certo que não exatamente pensando nas mães durante o puerpério, mas no "Portal para o Inferno" dos adolescentes no colegial), tocando ao fundo:

When the day is long and the night
The night is yours alone
When you're sure you've had enough
Of this life, well hang on
Don't let yourself go, 'cause everybody cries
And everybody hurts sometimes
If you're on your own in this life
The days and nights are long
When you think you've had too much
Of this life to hang on
'Cause everybody hurts
Take comfort in your friends

E esta foi a primeira lição que aprendi no mês que passou: encontrar conforto em outras companheiras de jornada, em outras mulheres que atravessam o mesmo turbilhão emocional quando se tornam mães e recebem seus "bundles of joy" e percebem que eles não trazem somente alegria, mas incontáveis momentos de solidão, insegurança, medo e da mais pura loucura! Sim, loucura por acordar numa não tão bela manhã depois do parto e não se reconhecer mais no espelho!
Mas o livro de Laura Gutman, A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra, pode oferecer algum conforto e, no meu caso, muitas lágrimas por me identificar tão dolorosamente bem com a descrição da mulher puérpera nele apresentada.

No entanto, aqui vai o aprendizado de alguém há dois anos nesse estado emocional de loucura pós-parto: o livro serve apenas para restabelecer um pouco de lucidez à mulher, e não vai mudar o comportamento de parentes e familiares cheios de boas intenções, mas ignorantes das reais necessidades emocionais da mãe e seu bebê; não vai mudar a opinião daqueles que acham que os filhos (dos outros) são do mundo e se sentem no direito de reivindicar a parte que lhes cabe logo nos primeiros dias de vida do recém-nascido; não vai aumentar a faculdade de sentir de certos homens e diminuir seu desejo (sexual) de recuperar a mulher "perdida" em noites insones e inundadas com leite, vômito e cocô; não vai parar as engrenagens do sistema econômico descrito por Karl Marx no final do século XIX e sua busca implacável por lucro e por um período capitalisticamente curto e socialmente aceito de licença maternidade.

Não. O livro é somente um feixe de luz lógica para a mulher mergulhada na escuridão de sensações e sentimentos da maternidade. É um despertar racional do pesadelo recorrente (e que muitas de nós acredita interminável) que é a fase do puerpério. As palavras de Laura Gutman até ajudam a colocar os pingos nos "is" da "insegurança", "insensatez" e "incertezas" da recém (ou nem tanto, no meu caso) mãe, mas elas não podem administrar milagres. Ninguém pode. Nem mesmo os remédios antidepressivos prescritos erroneamente por médicos despreparados para entender a revolução emocional e psicológica pela qual passam as mulheres depois do parto.

Depende de cada uma de nós (com ou sem o livro, com ou sem o apoio afetivo de familiares, amigos ou do próprio pai da criança) encontrar algum conforto para as longas e solitárias noites do puerpério, aprender mais sobre nós mesmas e descobrir a melhor maneira de sermos as mães que podemos ser neste exato momento.

Pois como entoa uma grande amiga e também mãe: "Vai passar."

E o sol volta a nascer na manhã seguinte ao puerpério.

Um comentário:

Ana Dos Santos disse...

meu mantra preferido ultimamente: "é só uma fase"!