sexta-feira, 14 de maio de 2010

“If you kill my demons my angels might die too”

Minha sogra é uma mulher de 54 anos sem nenhuma vaidade. Ela tem uma meia dúzia de trajes surrados, cabelos bem grisalhos e dois dentes a menos na boca.
Ela é uma beata que segue as doutrinas da religião à risca e liga, todo santo dia, para o “pároco” da família, a fim de ouvir suas palavras de sabedoria e receber sua bênção por telefone.

Ela pratica a caridade e alimenta os ruminantes sem-donos do bairro com as sobras do almoço e da janta. Ela é uma mulher de 45 quilos, sem vícios nem paixões, que come com extrema moderação e sem uma pitada de prazer.
Além dos seus dois filhos, a única coisa que lhe traz alegria é gritar com os empregados da casa. Seu único pecado é a ira, cometido contra os pobres diabos das castas mais inferiores que dependem daquelas poucas centenas de rúpias e não podem levantar a voz em sua defesa.

Esta é a única maneira que ela conhece para deixar o vapor sair, pois, nas palavras de Tennessee Williams, não se pode acabar com todos os demônios sem também se destruir os anjos que existem em cada um de nós.

Outros que precisariam se aprofundar na obra do escritor norte-americano são seus colonizadores, os ingleses, principalmente os moradores deste pacato vilarejo em Oxfordshire.

As ruas estão sempre limpas e bem-iluminadas. Os canteiros são bem-tratados e arranjados com as flores da estação. O trânsito é organizado e os pedestres jamais atravessam fora da faixa de segurança. Os serviços públicos são eficientes e gratuitos e os servidores, educados.

Mas o que mais impressiona é a coleta de lixo. Há recipientes de diferentes cores, tamanhos e propósitos, recolhidos de forma programada e alternadamente, todas as quartas-feiras: material orgânico para adubo (restos de comida e resíduos de jardim); material semi-orgânico para aterro (fraldas, absorventes internos, cotonetes); vidro branco e marrom, papel e plástico para reciclagem; roupas e sapatos usados e usáveis para doação, etc.

Tudo perfeito, o paraíso na Terra não fossem os demônios dos seus moradores...

E somente aqueles que não compreendem a dualística da natureza humana ficariam chocados com as transgressões que ocorrem nas madrugadas de sábado e domingo, quando o consumo exagerado de álcool e outras drogas abre as portas para as sombras tomarem conta das ruas escuras do condado. Atos de vandalismo podem ser vistos nas manhãs seguintes e os nomes das vítimas de esfaqueamento e estupro, ouvidos e repetidos, maquiavelicamente, nos noticiários da TV e rádio locais.

Porque, debaixo do verniz da polidez, por trás do sorriso cortês, sob a máscara da afabilidade, há um mundo subterrâneo e sulfuroso com águas fétidas e prontas para entrar em ebulição; há um vizinho bisbilhoteiro espiando as pessoas pelas frestas da veneziana; há uma senhora aposentada fazendo fofoca sobre a nora para as amigas do bingo; há um valentão da escola maltratando os mais fracos e diferentes; há uma devota do Babaji infernizando a vida dos criados; há uma estrangeira contaminando o lixo orgânico do município com sacolas pláticas.

Como diz uma música do grupo alemão Rammstein (Gott weiss ich will kein Engel sein), Deus sabe que eu não quero ser anjo, só anjo; não quero ser perfeita; quero apenas manter meus demônios vivos e encontrar uma maneira construtiva de permitir que eles também venham à superfície e se manifestem.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Grazie, A.

Tive uma segunda-feira vermelha, mas passei o dia inteiro me sentindo tão blue.


Mais uma manhã fria e nublada em Oxfordshire. Mais uma batalha entre mim e a minha filha para fazer cocô e comer uma papinha diferente. Mais uma ruidosa e calorosa discussão com meu marido por... nada realmente importante.
Um hábito nesses últimos 3 meses de vida em comum, assim como meu constante estado de raiva e frustração sem motivo aparente.

Até esta segunda-feira, quando o tempo começou a mudar...

Graças a outro hábito adquirido há mais de 14 anos (confesso envergonhada que era ilegal e caro, já que eu tinha que repor tudo o que era indevidamente apropriado e comido), durante minha estada em Bremen: o de vasculhar as gavetas da cozinha dos Bader-Shäffer em busca de qualquer coisa comestível.

Dessa vez, fui “remexer” nos sites visitados por uma grande amiga blogueira e me deparei com um artigo escrito pela psicóloga Clarissa de Franco para uma revista online (http://www.personare.com.br/revista/casa-e-familia/materia/554/depois-de-gerarquem-somos), parcialmente reproduzido abaixo e que explica, magnificamente, o que venho sentindo depois da gravidez:


‘É muito comum as mães recém-chegadas ao mundo passarem de garotas fortes e determinadas a mulheres confusas, cheias de dúvida e de um certo vazio, que se refere a um estágio de reformulação de identidade. Não temos mais todas as certezas, como na juventude, e de quebra, nos tornamos responsáveis pela participação na construção de um novo ser. Mas como nos responsabilizar por tamanha tarefa, se não sabemos mais sequer quem somos?’

É uma pena que essas gemas da psicologia moderna permaneçam escondidas como baús enterrados em ilhas virtuais da Web, esperando por cyber-aventureiras como a minha colega de faculdade para descobrirem o mapa do tesouro e encontrarem as pedras preciosas da rede.

E para retificar meu vergonhoso ato de pirataria, quero homenagear minha companheira de Fabico e nossas memoráveis e nostálgicas noites na casa de outro fabicano, aprendendo as lições dos Pythons sobre a Vida de Brian e a vida em geral:


“...Life's a piece of shit
When you look at it...
(but) always look on the bright side of life...”

Porque podemos ter muitas outras segundas-feiras vermelhas e nos sentirmos um lixo pelo resto da semana, mas sempre devemos olhar para o lado bom dessa existência.

Para aprender a lição inteira, visite o site:
http://www.youtube.com/watch?v=WlBiLNN1NhQ
E também visite o site abaixo, para descobrir novos tesouros:
http://caraminholasdealine.blogspot.com/

sábado, 8 de maio de 2010

Teoria do Camarão

Nos meus brevíssimos 4 meses em Belo Horizonte, morando com meus pais, eu tive uma motorista particular que me levava e buscava das inúmeras sedes do curso de inglês onde eu lecionava: a minha mãe.


Com 33 anos e depois de ter viajado sozinha pelo mundo por quase 6 deles, ela ainda temia pela minha segurança naquela "cidade estranha" e acordava às seis e pouco da manhã, para me deixar na porta da escola. Como retribuição a esses sacrifícios diários (porque a minha velha é muito chegada numa cama), eu aceitava almoçar com ela num dos shopping centers mais caros de BH, para ela poder comer o que mais gostava: camarões imensos, acompanhados de outras coisas mais comuns e menos saborosas.

No entanto, para minha total surpresa e quase indignação, ela nunca começava a refeição por aquilo que tanto tinha esperado e sempre deixava o melhor bocado para a última garfada. Eu costumava dizer (num tom de brincadeira que ela jamais entendeu) que, se ela batesse as botas naquele exato momento, milésimos de segundos antes de colocar o camarão na boca e senti-lo com a língua já encharcada de saliva, ela não teria aproveitado o melhor do almoço, a razão primeira de estarmos naquele lugar.

Mas ela não é a única.

Todas as vezes que preparo duas torradas e dois ovos estalados para o café-da-manhã do meu marido, presencio uma cena semelhante: ele devorando a periferia; comendo as bordas queimadas do pão e a não-tão-interessante clara; circundando a tão desejada gema mole com destreza cirúrgica para, então, abocanhá-la de um só golpe, sem misericórdia alguma.

E eu me pergunto o porquê do hábito generalizado da procrastinação.
Por que adiar o prazer? Por que se empanturrar, sobrecarregar o corpo com aquilo que não se gosta “muito” e deixar o melhor para o final, quando já não há tanto apetite ou espaço no estômago? Por que passar pela vida de maneira medíocre, árdua e insípida, para aproveitar uma aposentadoria segura e confortável, quando já não se tem mais a saúde e a juventude de antes?

A resposta (irônica) a essas questões todo mundo sabe.

Apesar de sermos a única espécie no planeta a ter consciência da morte, preferimos ignorar sua existência; preferimos acreditar nos dados do último censo e planejar cada ano dos 50 que esperamos ter pela frente, sem considerar qualquer outra possibilidade (como a teoria do Camarão, por exemplo).

Eu sei que é insensato não ter um plano de saúde privado ou dinheiro investido em ações, quando se tem uma família para sustentar. Mas é possível, sim, aproveitar mais cada dia que respiramos sem cair no hedonismo; dedicar um tempo para fazer, hoje, as atividades que dão alegria e satisfação e não apenas dinheiro; começar a refeição pelo melhor bocado ou, pelo menos, dividi-lo e saboreá-lo entre uma garfada e outra. Mesmo sendo vegetariana, tenho certeza que deve ser mais prazeroso comer um camarão aqui e outro acolá do que nenhum.