Cruzei meu caminho com o de April Wheeler em 2008, quando o filme de Sam Mendes (baseado na novela de Richard Yates) foi lançado e eu ainda era a pessoa que pensava ser.
A empatia com a personagem interpretada por Kate Winslet foi imediata e terminei de corrigir as legendas em português para o DVD com um imenso nó na garganta, uma dor aguda no peito e um terrível pressentimento. Mesmo antes de ter passado pelo terremoto existencial e psicológico que destruiria as estruturas do meu EU como solteira e pré-grávida, a estória de Yates sobre um ordinário casal norte-americano da década de 50 me pareceu um aviso do que estava por vir.
Assim como April, eu também achava que tinha um relacionamento especial, que éramos diferentes e estávamos destinados a uma vida fora do comum. Assim como ela, também sofro com a entediante rotina de esposa-mãe-e-dona-de-casa e acredito que a mudança de ares pode mudar o foco dos problemas de um casamento já em processo avançado de erosão.
Mas cá estava eu na cozinha da nossa casa alugada (não na Revolutionary Road dos Wheelers, mas na Edinburgh Drive dos J.s), preparando o jantar para um casal de indianos, vestida a caráter com meu respeitável kurti e preocupada se eu passaria pelo crivo deles. Era o segundo dia consecutivo que entretinha os colegas do meu marido e suas respectivas esposas, mas a única diferença deste para o anterior é que eles também tinham uma filha pequena e, consequentemente, parecíamos mais afins.
As horas se arrastaram de maneira agradável e cordial e, enquanto os homens conversavam sobre trabalho na sala de estar, com um copo de uísque na mão, as mulheres segregavam-se no outro canto da casa, bebericando vinho branco e trocando ideias de como criar as meninas e decorar seus quartos de volta a Índia. A minha se comportou maravilhosamente bem e foi para a cama logo depois do banho, sem choradeira e no horário de costume, dando a chance para os adultos se conhecerem melhor e terminarem a janta, já embriagados, com um amistoso jogo de perguntas (inúteis) e respostas (superficiais).
A noite foi um sucesso: tive minha comida elogiada, meu sotaque indiano reconhecido e minha incrível semelhança com uma mulher punjabi constantemente trazida à tona. Nos despedimos com abraços calorosos e promessas de um imperativo encontro das duas famílias.
Ao abanar sorrindo para o carro que sumia à distância, novamente o nó na garganta, a dor no peito e o pressentimento. Aquilo era tudo o que eu podia sonhar nesse meu novo papel como esposa-mãe-e-dona-de-casa. Só espero não conceber acidentalmente pela segunda vez e ter o mesmo fim trágico de April Wheeler, pois o meu EU como solteira e pré-grávida ainda respira debaixo dos escombros.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Síndrome de Garbage
Eles apareceram no cenário musical em 1994 como a nova sensação do rock alternativo.
Formada pela escocesa Shirley Manson e os americanos Duke Erikson, Steve Marker e Butch Vig, a banda Garbage percorreu a tradicional trajetória de ascendência repentina e meteórica (ganhando dois prêmios Grammys), sucesso efêmero e queda vertiginosa nas paradas e na memória dos “fãs”.
Depois de quase 10 anos juntos, eles se separaram, voltaram e se separaram de novo como grupo, seguindo caminhos solos e diferentes. A maioria das suas músicas carrega um tom pessimista, depressivo e cheio de tormento e, entre as dezenas de canções gravadas, as mais conhecidas continuam sendo “Vow” e “Stupid Girl”. Pessoalmente, acho que seu melhor legado é “I’m only happy when it rains”:
Ainda não tive que ir tão longe nem tão fundo na minha melancolia e frustração, mas me sinto como Lord Byron, Charles Baudelaire e Fagundes Varela na hora de expressar meus sentimentos. Nada das substâncias ilícitas dos boêmios do romantismo, mas as palavras parecem “jorrar” mais facilmente para as páginas, durante dias cinzentos e chuvosos. E não há algo melhor que um relacionamento findo para partir um coração e fazê-lo sangrar sua criatividade lúgubre.
É a síndrome de Garbage da qual sofrem os neo-românticos do século XXI (como esta que aqui escreve e), que precisam que as coisas sejam complicadas e dêem errado para se sentirem felizes no papel.
Para sentir a síndrome de Garbage, visite o site:
http://www.youtube.com/watch?v=zHrRBqMy-0Q
Formada pela escocesa Shirley Manson e os americanos Duke Erikson, Steve Marker e Butch Vig, a banda Garbage percorreu a tradicional trajetória de ascendência repentina e meteórica (ganhando dois prêmios Grammys), sucesso efêmero e queda vertiginosa nas paradas e na memória dos “fãs”.
Depois de quase 10 anos juntos, eles se separaram, voltaram e se separaram de novo como grupo, seguindo caminhos solos e diferentes. A maioria das suas músicas carrega um tom pessimista, depressivo e cheio de tormento e, entre as dezenas de canções gravadas, as mais conhecidas continuam sendo “Vow” e “Stupid Girl”. Pessoalmente, acho que seu melhor legado é “I’m only happy when it rains”:
“I’m only happy when it rainsA letra lembra uma versão moderna e massificada dos romances dos “malditos” dos séculos XVIII e XIX, quando era preciso sofrer ao extremo, descer até as profundezas da alma para achar inspiração e escrever sobre amores platônicos e impossíveis.
I’m only happy when it’s complicated (...)
I feel good when things are going wrong
I only listen to the sad, sad songs (...)
You’ll get the message by the time I’m through
When I complain about me and you
I’m only happy when it rains.”
Ainda não tive que ir tão longe nem tão fundo na minha melancolia e frustração, mas me sinto como Lord Byron, Charles Baudelaire e Fagundes Varela na hora de expressar meus sentimentos. Nada das substâncias ilícitas dos boêmios do romantismo, mas as palavras parecem “jorrar” mais facilmente para as páginas, durante dias cinzentos e chuvosos. E não há algo melhor que um relacionamento findo para partir um coração e fazê-lo sangrar sua criatividade lúgubre.
É a síndrome de Garbage da qual sofrem os neo-românticos do século XXI (como esta que aqui escreve e), que precisam que as coisas sejam complicadas e dêem errado para se sentirem felizes no papel.
Para sentir a síndrome de Garbage, visite o site:
http://www.youtube.com/watch?v=zHrRBqMy-0Q
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Caixinha de surpresas
Em 1690, o filósofo inglês John Locke lançou as bases do empirismo ao escrever sua tese epistemológica Tabula Rasa. Para ele, todas as pessoas vinham ao mundo sem trazer absolutamente nenhuma impressão ou conhecimento, como se fossem “folhas em branco”, prontas para serem preenchidas pela experiência, aprendidas através da tentativa e erro.
Na época, esses conceitos foram muito importantes para fundamentar a ideia da igualdade intrínseca entre os homens, mas as descobertas científicas na genética e comportamento humanos confinaram a obra de Locke para alguns capítulos da filosofia e do direito natural.
É claro que o entendimento sobre genes e cromossomas estavam muito à frente de seu tempo e seriam, no final do século XVII, apenas material para a literatura gótica de Mary Shelley. Mas se aquele inglês, estudante da Universidade de Oxford, tivesse prestado um pouco mais de atenção no desenvolvimento dos próprios filhos, a História, provavelmente, teria sido escrita de outra maneira...
Pois como ignorar o papel da cultura no aprendizado? E como explicar que duas crianças, criadas pelos mesmos pais e no mesmo ambiente, tenham personalidades diferentes?
Atualmente, há dezenas de teorias e Escolas de Psicologia que tentam retificar tal erro.
Aqui em casa, é a minha Pequena que prova constantemente que o filósofo de Sommerset deixou escapar algo em sua tese. Com pouco menos de 7 meses de vida, ela me surpreende com sua curiosidade inata e, ainda que esteja na fase da “não-permanência do objeto”, ela se estica do carrinho à procura dos brinquedos derrubados no chão.
E mesmo tendo me tornado uma mãe-coruja, só posso classificar de inteligente o ato de ela se segurar na banheira para não escorregar, agora que está aprendendo a se sentar sozinha; ou quando encosta apenas a ponta da língua antes de comer as papinhas, como se quisesse ter a certeza de que a refeição é palatável; ou na hora de dormir, ao puxar a coberta e guspir a chupeta com um sorriso que diz que ela ainda não está com sono.
Não, Mister Locke, os bebês não chegam a este mundo como “folhas em branco”. A minha, pelo menos, já veio com uns rabiscos em punjabi e português. Mas continuo acreditando que a expressão mais apropriada para conceituá-la seja a de uma linda e adorável caixinha de surpresas.
Na época, esses conceitos foram muito importantes para fundamentar a ideia da igualdade intrínseca entre os homens, mas as descobertas científicas na genética e comportamento humanos confinaram a obra de Locke para alguns capítulos da filosofia e do direito natural.
É claro que o entendimento sobre genes e cromossomas estavam muito à frente de seu tempo e seriam, no final do século XVII, apenas material para a literatura gótica de Mary Shelley. Mas se aquele inglês, estudante da Universidade de Oxford, tivesse prestado um pouco mais de atenção no desenvolvimento dos próprios filhos, a História, provavelmente, teria sido escrita de outra maneira...
Pois como ignorar o papel da cultura no aprendizado? E como explicar que duas crianças, criadas pelos mesmos pais e no mesmo ambiente, tenham personalidades diferentes?
Atualmente, há dezenas de teorias e Escolas de Psicologia que tentam retificar tal erro.
Aqui em casa, é a minha Pequena que prova constantemente que o filósofo de Sommerset deixou escapar algo em sua tese. Com pouco menos de 7 meses de vida, ela me surpreende com sua curiosidade inata e, ainda que esteja na fase da “não-permanência do objeto”, ela se estica do carrinho à procura dos brinquedos derrubados no chão.
E mesmo tendo me tornado uma mãe-coruja, só posso classificar de inteligente o ato de ela se segurar na banheira para não escorregar, agora que está aprendendo a se sentar sozinha; ou quando encosta apenas a ponta da língua antes de comer as papinhas, como se quisesse ter a certeza de que a refeição é palatável; ou na hora de dormir, ao puxar a coberta e guspir a chupeta com um sorriso que diz que ela ainda não está com sono.
Não, Mister Locke, os bebês não chegam a este mundo como “folhas em branco”. A minha, pelo menos, já veio com uns rabiscos em punjabi e português. Mas continuo acreditando que a expressão mais apropriada para conceituá-la seja a de uma linda e adorável caixinha de surpresas.
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