terça-feira, 10 de abril de 2012

Confissões a Pablo

Nos desencontramos deste mundo por apenas dois anos. 
Mais precisamente, 671 dias separam a morte de Ricardo Eliécer Neftali Reyes Basolato e o dia do meu nascimento, em julho de 1975.
Bem, talvez seja muita presunção comparar minha vida pouco ilustre com a do jovem chileno que se tornaria Pablo Neruda. Fomos, sem dúvida nenhuma, protagonistas de estórias bem diferentes, mas tivemos, sim, algo em comum: uma vida muito intensa.
E a minha começou bem cedo.
Passei os primeiros anos da minha infância num lugar quente e rico em sabores no Nordeste brasileiro. E nas ruas ainda calmas de Recife eu aprendi a andar de bicicleta e a subir em árvores, gozando de uma liberdade e segurança agora muito raras nas capitais do Brasil.
No entanto, tais direitos logo foram perdidos aos seis anos de idade, quando toda a família voltou ao seu estado de origem e se estabeleceu de vez em Porto Alegre. E, mesmo morando num espaçoso apartamento de três dormitórios e estando mais alta que qualquer árvore das redondezas (no décimo quarto andar do nosso edifício), meu mundo havia se tornado claustrofóbico e inesperadamente frio.
Foi quando as "travessuras" de uma criança entediada e inconsequente começaram... Além dos clássicos trotes telefônicos às pizzarias da cidade envolvendo os coitados dos vizinhos, eu passei a jogar coisas da janela da nossa casa no Bom Fim. E qualquer coisa podia ser um objeto da minha pervertida diversão: moedas, cubos de gelo, camisinhas cheias de água, bergamotas que minha avó trazia do sítio, os discos de vinil do meu pai e até ovos e latas vazias de milho verde!
Eu podia ter seguido com essa brincadeira (engraçada só para mim) por muitos anos, mas fui flagrada pelo zelador do prédio ao lado do nosso e meus pais passaram a ficar mais atentos aos meus atos (de quase) vandalismo. Só não descobriram que, fora de casa e em volta do quarteirão, eu continuava com outro dos meus passatempos maldosos favoritos: golpear as pessoas que caminhavam por nós (sim, nessa época, eu já tinha reunido uma pequena gangue) com uma antena de rádio quebrada e escondê-la rapidamente na manga das roupas que usava.
Eu sei. É terrível e chocante e eu mesma me sinto muito envergonhada, mas igualmente intrigada. Não consigo entender o que aconteceu com a criança feliz que antecedeu aquela adolescente perversa. Será que a perda da liberdade me transformou num monstro?
Por mais simplista que possa parecer, a explicação soa bastante razoável e hoje, depois de ter virado a página desse meu passado há mais de 20 anos e ter me tornado "a true law abiding citizen", me vejo repetindo o antigo padrão de comportamento. Não, não jogo mais nada da janela (nem sequer um fio de cabelo pelo vidro do carro) e não imagino que fim tenha levado a tal antena de rádio, mas voltei a golpear as pessoas ao meu redor (a minha própria família), com palavras tão cruéis e maldosas quanto as batidas fortes e certeiras de um pedaço de metal.
E, mais uma vez, não consigo entender o que aconteceu com aquela mulher que viu pores do sol em diferentes partes do mundo, que andou de camelo e de elefante e que mergulhou os pés descalços em tantos mares para ela se transformar nessa criatura constantemente amarga e ressentida. Será que o casamento e a maternidade também me fazem sentir claustrofóbica e inesperadamente fria? Será que o término da minha livre vida de solteira e o início da outra como consorciada e mãe me entendiam tanto e me deixam inconsequente? Será que vou precisar de algum flagrante para cessar meus atos perversos?
Eu podia procurar mais detalhes na biografia de Neruda e tentar descobrir o que deu errado em seus dois primeiros casamentos e como ele superou o terror do que viu durante a Guerra Civil Espanhola...
Ou talvez pudesse simplesmente confessar a Pablo  (e a quem quisesse me ouvir) que eu também vivi e aprontei muito, mas que ainda não aprendi a aceitar as mudanças da vida.

terça-feira, 3 de abril de 2012

The Orange Brigade

A primeira vez que ouvi falar da Brigada Laranja foi em 2008, quando a ideia de ter um marido e uma filha ainda era distante e eu vivia, sem o saber, minha última grande aventura sozinha, em Londres.
Logo vim a descobrir que essa não era uma facção da Fraternidade Protestante da Irlanda do Norte (The Orange Order), nem os fiéis assinantes da empresa de telefonia móvel 'Orange'. No entanto, tal expressão parecia mais uma brincadeira entre colegas de profissão, quando o mais respeitável dos nossos professores de inglês explicou, com risadinhas contidas, que esse era o nome pelo qual eram conhecidas as mulheres que se submetiam ao bronzeamento artificial durante os rigorosos meses de inverno no Reino Unido.
Sim, eu mesma já tinha visto rostos exageradamente alaranjados passeando pelas ruas movimentadas de Oxford St e Regent St, mas imaginar que já havia uma palavra para designar um mero modismo feminino era um absurdo. Soava mais como uma lenda urbana do país...
Três anos depois, eu voltava ao cenário londrino para passar o carnaval de Notting Hill com a minha recém formada família e me deparei com o verdadeiro destaque da festa.
Caía uma garoa fina naquele domingo quente de agosto e, ao meu lado, estava uma mulher de meia-idade dançando ao ritmo dos caminhões de som que embalavam a multidão nas ruas do Condado Real de Kensignton e Chelsea. Ela usava um espartilho bege e uma calça branca extremamente colados ao corpo e tinha o cabelo preso com uma fita para esconder a emenda dos fios naturais com as falsas madeixas.
Em poucos minutos, junto com a água da chuva, escorria um líquido alaranjado pelo rosto e pelos braços roliços daquela mulher, desde a testa até o colo descoberto, maculando suas vestimentas claras de maneira inapropriada e lamentável. Mas ela continuou remexendo os quadris, indiferente ou ignorante ao espetáculo patético que encenava, talvez na esperança de que ninguém mais o notasse.
Infelizmente, eu estava ali para notar e imediatamente me lembrei da expressão de 2008.
Mas segui com minha vida, porque a Brigada Laranja não fazia parte dela...
Até seis meses mais tarde eu me encontrar numa loja de cosméticos no único shopping centre de Watford e me ver comprando, enganadamente pelas luzes artificiais do lugar, o pó compacto errado para minha tonalidade de pele.
Só me dei conta do engano no dia seguinte (e nos que a ele se seguiram), quando empurrava o carrinho da minha filha pela St Albans Road e tinha o rosto apresentando os tons daquela cor terciária. Mantive a cabeça erguida, não cheia de orgulho, apenas cuidando o céu para voltar rapidamente para casa ao menor sinal de chuva.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Il dolce far niente

Segundo o dicionário online MacMillan, "lady of leisure" é uma mulher que não precisa trabalhar, ou porque o marido ganha bem ou porque ela vive de alguma herança ou ainda porque tem um 'protetor' endinheirado. No sentido figurado e bastante contemporâneo, também pode significar uma pessoa do sexo feminino que está desempregada ou até uma prostituta (quando a ênfase cai mais sobre a palavra 'leisure').
A origem dessa expressão, no entanto, é desconhecida, mas tenho um palpite que ela é tão antiga quanto as sociedades greco-romanas da Antiguidade, em que havia trabalho escravo  em abundância e as senhoras dos então cidadãos estavam livres de obrigações e responsabilidades domésticas e podiam despender seu tempo ocioso em outras atividades de lazer.
Desde que nos mudamos para a Inglaterra (em 2010) e minha filha tinha apenas 4 meses de vida, meu marido insitia para que eu não ficasse, desnecessariamente, estressada com o prazo de entrega dos trabalhos de revisão e tradução que eu teimava em continuar aceitando e me dedicasse à criação de nossa menina e à manutenção de nossa casa. Afinal de contas, o que eu recebia não tinha muito impacto nas finanças da família...
Mas isso era algo impensável para mim, mesmo com a terrível descarga de adrenalina que eu sentia ao me dividir entre os cuidados da minha Pequena e o término de um arquivo no tempo estabelecido.
Eu já tinha abandonado, por causa da maternidade, a ideia de um emprego convencional, das 9h às 18h, num lugar remotamente parecido com ou que pudesse ser chamado de escritório. Desistir do meu último vínculo com o mundo fora da minha tríade atual (mãe-esposa-e-dona-de-casa) parecia um passo atrás na minha História pessoal e outro dentro de culturas retrógradas e conservadoras, ainda que morando num país desenvolvido e que oferece benefícios em dinheiro para as mães cuidarem de suas crianças em casa.
Mas a vida é cheia de surpresas e, desde que retornamos para a Inglaterra (em janeiro de 2012 e depois de quase dois meses de 'férias' entre o Brasil e a Índia), meu computador de quatro anos deu seu derradeiro suspiro eletrônico e não ligou mais.
Com o coração repleto de tristeza pela perda repentina de um velho companheiro, fui obrigada a estender meu período de inatividade, indefinitivamente, na empresa para a qual fazia serviços freelance de tradução e revisão e passei a ter mais horas sobrando no meu dia, para empregá-las em outras atividades.
A lady of leisure at last? Well, not quite! É difícil enquadrar o glamour dessa expressão nas tarefas domésticas que continuam a se avolumar diariamente e que eu continuo a executar sozinha, sem vigorosos escravos à minha disposição.
Entretanto, não preciso mais representar o papel daquela tríade feminina às pressas. E a simples ideia de poder realizar a limpeza da casa ou fazer a comida para a família ou sentar no sofá com a minha filha, com calma, sem prazos para cumprir, é libertadora.
E talvez seja esse o real significado da expressão inglesa (do latim,  licēre quer dizer 'ser permitida'): "lady of leisure" é a mulher que tem permissão de desfrutar os confortos da casa e, principalmente, de apreciar a companhia dos filhos, ou porque o marido ganha bem ou porque ela vive de alguma herança ou ainda porque tem um 'protetor' endinheirado.
Graças ao meu marido, nunca curti tanto nossa menina e nossos momentos juntas, em frente à televisão, saboreando uma refeição maravilhosa, no mais puro estilo do dolce far niente.