quinta-feira, 1 de abril de 2010

Pesadelo de três semanas

Parecia perfeito. Eu já havia estado em Panaji (capital do estado de Goa e antiga colônia portuguesa) várias vezes a trabalho. Na verdade, tinha sido eu a responsável por fazer os arranjos para a acomodação dos voluntários internacionais e os contatos para o projeto de três semanas, em parceria com outra ONG local.



No fundo, eu estava com muita vontade de liderar aquele acampamento. Além de ter feito a coordenação de tais eventos por quase quatro meses, treinando “team leaders” para lidar com todo o tipo de problema e personalidade, eu mesma nunca tinha sido uma, nunca tinha tido tal experiência. Estava na hora de sentir, nos ombros, o peso de tamanha responsabilidade e de colocar, em prática, tanta teoria.


Assim, na falta de outra pessoa disponível e qualificada e, no último minuto possível, antes do desembarque dos estrangeiros, fui incumbida de tal tarefa e mandada no primeiro ônibus de Bangalore para a capital de Goa.


Era manhã de 09 de agosto de 2004 e eu descia na estação central de Panaji poucas horas antes dos próprios intercambistas. Mal tive tempo de deixar minha mochila na casa que havia alugado para os próximos 21 dias e cumprimentar a família proprietária, e já tinha que voltar para receber os voluntários.


Por falta de tempo e organização, eu já começava meu acampamento quebrando a primeira regra da ONG e não carregava cartaz algum com os nomes das pessoas. Teria que confiar no meu bom senso e abordar aquelas que menos se parecessem com os típicos indianos. Soava lógico, mas eu não contava com o fato de que Panaji era visitada, todos os dias, por centenas de turistas, a maioria deles europeu, de pele clara e com cara de mochileiros, ou seja, com o perfil que eu procurava.


Depois de horas e voltas pela área central da rodoviária, havia encontrado seis dos meus sete voluntários inscritos. “A japonesa deve ter desistido na última hora”, pensei. Era, relativamente, comum naquele ramo e, extremamente, plausível naquela situação. Só tinha um problema imediato com o qual lidar: umas das estrangeiras (muçulmana, moradora de Paris e refugiada religiosa de uma das ex-colônias francesas na África) tinha tido a mala confiscada no aeroporto de Mumbai e estava apenas com a burca do corpo. Seria mais fácil encontrar roupas adequadas para ela em Hyderabad (capital indiana de maioria islâmica), mas não na Goa colonizada por portugueses cristãos! Era a primeira de uma série de dores-de-cabeça que teria em três semanas.


A segunda foi descobrir, na manhã seguinte, que a japonesa estava, sim, na Índia, mas perdida em algum ponto entre os estados de Kerala e Maharashtra. Foi uma verdadeira enxaqueca descobrir a exata localização, já que ela tinha um inglês pouco fluente. Dois dias mais tarde, com os nervos de todos à flor da pele e o programa atrasado, encontramos Mio sentada num banco da estação ferroviária de Margao, no sul de Goa. Parecia que a tempestade tinha finalmente cedido e que, dali em diante, apenas dias melhores viriam. Ilusão que pouco durou.


Além das chuvas monçônicas (que atingem o estado entre junho e setembro), começaram as tormentas diárias de reclamações. Cada voluntário queria comer algo diferente, sair para um lugar turístico diferente, fazer algo diferente. Poucos pareciam, de fato, cientes que estávamos fazendo um serviço social para a conscientização da transmissão do HIV, numa das partes da Índia que registra o maior número de casos. Poucos pareciam se dar conta da importância da mensagem que, juntos com a outra ONG local, tentávamos passar para alunos das escolas públicas da região. Poucos pareciam dar valor ao teatro de rua que apresentávamos para caminhoneiros (um dos grupos mais atingidos pelo vírus). Mas todos sabiam reclamar da água do banho que demorava para esquentar, da comida apimentada, dos mosquitos à noite, da distância que tínhamos que caminhar para chegar às escolas, da chuva, do sol, do calor, do mormaço...


Até que algo maior emergiu na rotina de todos nós: o colapso nervoso e emocional da intercambista belga. Talvez por estarmos lidando com as formas de transmissão do HIV ou talvez pelo constante assédio dos indianos em cima das européias, o fato é que no final da primeira semana, as histórias de abuso sexual na infância sofridas pela menina vieram à tona.


Por aquela ninguém esperava ou tinha estrutura psicológica para lidar. Eu mesma quase surtei com a bola de neve de problemas que crescia diariamente e, só não abandonei tudo e todos na pensão em Dona Paula (como fez uma intercambista) por falta de energia. Era imenso o esforço que eu fazia para manter a situação sob aparente controle. Várias vezes, trancada no banheiro da casa alugada, eu chorava sozinha e silenciosamente, sem o apoio do chefe da ONG em Bangalore e apenas rezando para que os dias passassem mais rapidamente e que eu pudesse voltar à minha conhecida rotina.


O golpe final foi deferido na última sexta-feira do acampamento, quando uma das estrangeiras causou uma cena e acusou a dona da pensão de ter “sumido” com o dinheiro dela. Faltando pouco mais de 48 horas para terminar o programa, tivemos que fazer as malas e procurar outro lugar, estourando o orçamento estipulado pela organização. Aquele parecia ter sido meu mais longo e atormentador pesadelo em 4 meses de Índia. Mal eu podia jurar que outros piores viriam.

Perdida nas ruas de Bangalore

Desde 96, quando morei no exterior pela primeira vez, tinha aprendido que, para conhecer um lugar a fundo e de fato, era preciso se perder primeiro.



Por isso, nos meus finais de semana, eu me perdia nas ruas de Bangalore. Eu saía da sede da FSL de manhã cedo e caminhava sem rumo e por horas, apenas com uma garrafa de água e o mapa da cidade: me perdendo, me achando e me perdendo novamente, até voltar, no fim da tarde, ao ponto que tinha começado.


Naquelas primeiras semanas, eu estava perdidamente apaixonada pela Índia: pelo choque cultural de cores e sabores, pelas vacas sagradas e pelos sáris mundanos e, principalmente, por aquelas figuras exóticas de turbantes que se reuniam num templo perto da organização.

Aqueles eram Sikhs - seguidores de uma religião pouco conhecida pela maioria dos brasileiros - buscando conforto espiritual na casa de Deus, o Gurudwara. Eles são mais de 25 milhões fiéis espalhados pelo mundo, mas representam uma pequena comunidade em Karnataka, longe do seu estado indiano de origem (Punjab); são uma minoria de apenas 2%, num país predominantemente hindu.

Eles acreditam em reencarnação e num único e onipresente criador; e são uma mistura recente (a religião foi criada no século 15, a partir dos ensinamentos do Guru Nanak) de partes do hinduísmo e do islamismo.

O cabelo (kēs) é considerado sagrado e permanece coberto e fora do alcance das tesouras desde o nascimento. Por isso, a profusão de turbantes e véus e a escolha do pente (kaṅghā) como o segundo dos 5 Ks usados pelos homens dessa religião como acessórios da fé. Os demais Ks são o kaṛā (uma pulseira de metal), o kirpān (uma pequena espada ceremonial) e o kacchā (uma roupa de baixo especial).


Assim como os cristãos, eles também são batizados, mas proibidos de se divorciarem e têm seus corpos cremados após a morte.


Era muita informação para ser absorvida numa única visita. Precisaria de muitos outros finais de semana, dentro e fora do Gurudwara, para entender um pouco mais sobre o sikhismo. E o que me incitava a continuar com minhas buscas exploratórias era a esperaça de rever um Sikh em particular.


Aconteceu por acaso, numa das primeiras caminhadas pelas ruas de Bangalore. Um rapaz todo de branco e turbante passou por mim de bicicleta, me olhando diretamente nos olhos. Sorri e ele fez um retorno e passou, novamente, por mim, também sorrindo. Dessa vez, seguiu na bicicleta... até desaparecer, se perder em alguma rua de Bangalore.


E por mais interessada que estivesse em saber mais sobre a religião, eu queria mesmo era ver o que se escondia por baixo daquele misterioso turbante. E eu tinha certeza que o destino também sorriria pra mim e me daria tal oportunidade. Mais cedo ou mais tarde.

quarta-feira, 31 de março de 2010

O chapatti de cada dia

É feito de farinha integral de trigo de grão duro (o mesmo usado para fazer a semolina para a pasta italiana), água e sal. É fino, redondo e achatado, parecido com uma panqueca, de diversos diâmetros, mas a principal fonte de carboidrato no norte e noroeste da Índia. É grelhado numa frigideira (tawa) sem óleo e, posteriormente, servido com a deliciosa e calórica manteiga clarificada (ghee) e consumido com vários tipos de lentilhas, feijões e legumes.



O pão indiano de cada dia é o chapatti. E, a partir dele e daqueles três ingredientes básicos, foi sendo criada uma variedade de outros pães, igualmente de forma achatada e arredondada.


O roti é feito quase da mesma maneira, mas com farinha de trigo branca. Uma variação é o rumali roti, trazido para a Índia pelos conquistadores Moghuls, e cujo nome, em urdu, significa lenço de bolso. Nada melhor para descrevê-lo, uma vez que esse pão assado em um forno de barro (chamado tandoor) é enorme e servido dobrado tantas vezes que poderia caber no bolso de um paletó.


A paratha (parantha ou ainda porotha) é frita e pode ser recheada com pequenos pedaços de batata cozida, rabanete, couve-flor ou paneer (um tipo de queijo ricota); ao contrário do chapatti, não é acompanhada de leguminosas, mas de alguma variedade de pickle apimentadíssimo (de manga, tomate...).


A kulcha é típica do estado de Punjab, também recheada com batata, mas assada no tandoor e feita com uma farinha de trigo super refinada (a maida flour) e servida com um molho de grão de bico (conhecido como chole ou chana masala).


Ainda mais comum com essa leguminosa é a bhatoora, e os dois juntos formam um clássico prato, criado nas ruas movimentadas de Nova Déli: o chole bhature. É feita com a farinha maida, iogurte, gordura e fermento, e frita em bastante óleo até inchar e parecer uma bola de futebol.


O naan pode ser considerado um parente do árabe pita e é o mais próximo do nosso conceito ocidental de pães, pois é amassado com fermento, colocado à parte para a massa crescer e, depois, assado. Servido ainda quente e com uma generosa porção de manteiga ou ghee e alho é de lamber os dedos. Isso, por sinal, é típico na cultura indiana. Mas dá para entender. Ainda mais se outras inúmeras delícias gastronômicas do sul daquele país, à base de arroz, também fossem nomeadas.


Com tantas variedades e sabores e temperos, era improvável que uma brasileira vegetariana não experimentasse e abusasse do que a culinária da Índia tinha a oferecer por longos 3 anos, 8 meses e 6 dias. Até que a curiosidade se transformasse em gula... Até que o segundo pecado capital do cristianismo levasse à destruição de 28 anos de um organismo acostumado apenas à sal e pimenta... Até que quele período de vício fosse punido e castigado pelas próprias divindades hindus e quase me levasse à condenação... Até que eu fosse obrigada a comer o chapatti que o Diabo tinha amassado, para redimir meus pecados.