Segundo a escala de (Virgínia) Apgar, minha filha ficou a apenas um ponto de receber avaliação dez no primeiro e quinto minutos de vida, por causa da cor de pele azulada. Provavelmente, ela sentiu frio fora do aclimatado útero materno.
Mas, com essa exceção, ela era um bebê normal...
Até apresentar um estalinho no quadril esquerdo, percebido, posteriormente, durante um exame pediátrico de rotina.
Depois de consultar vários especialistas e de fazer uma ultra-sonografia da área, deixamos o Brasil com a certeza de estar tudo normal e com a recomendação médica de repetir o teste aos seis meses de idade.
No entanto, são mínimas as chances de se conseguir uma brecha no abarrotado sistema de saúde público do Reino Unido (um verdadeiro SUS de primeiro mundo, onde é preciso marcar hora para ir à emergência do hospital!) e só pudemos ver a doutora Annie Hurley agora, quando a nossa menina está prestes a completar dez meses.
Ser mãe não é tarefa fácil, mas ser mãe de um filho doente deve ser uma das mais difíceis de se desempenhar, mantendo a dignidade. E foi por esse motivo que senti terror, pânico e uma profunda compaixão ao entrar na ala pediátrica do Centro Ortopédico Nuffield, em Headington, Oxfordshire.
A sala de espera estava lotada e, para qualquer lado que eu olhasse, havia crianças de próteses, muletas e em cadeiras-de-rodas. E tinha até um bebê com as duas perninhas engessadas! Uma cena que, por si só, encheria de tristeza o coração de qualquer pessoa, quanto mais de um pai.
O pior foi descobrir que a minha filha está, novamente, a um mísero pontinho da perfeição, para sua idade. Ao invés de 27 graus, o ângulo formado entre os ossos da bacia é de 28. Isso não é tragicamente anormal, mas coloca nossas vidas em suspense por mais um ano, quando teremos que fazer novos exames e medições. Só então os médicos vão ter mais clareza sobre o desenvolvimento ósseo daquela região e decidir se a extrema flexibilidade nas pernas da nossa menina é aceitável ou requer intervenção cirúrgica.
De repente, a imagem da minha única filha deitada numa cama de hospital me fez lembrar do acidentado e doloroso caminho trilhado por Lucinha Araújo e Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza. Seja qual for o nosso destino, rezo para ter a mesma força e coragem que aquele exemplo de mãe, ainda hoje, oferece aos pais do Brasil.
Da minha parte, deixo aqui meu sincero respeito por aquela família.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
O grande segredo
Esqueçam os livros. Esqueçam o doutor Rinaldo De Lamare ou a Encantadora de Bebês, Tracy Hogg. Esqueçam os sites especializados e os blogs amadores. Esqueçam esta postagem assim que terminarem de ler...
Porque não há “receitas de bolo”, não há “guias-passo-a-passo”, não há instruções online a serem seguidas, quando o assunto é maternidade.
Cada criança é tão diferente da outra quanto sua impressão digital.
Cada uma traz consigo uma bagagem genética única para enfrentar sua estada temporária num ambiente sócio-econômico-político-cultural-religioso-familiar também único.
Então, por que procurar as respostas dadas por outros bebês?
Como dizia minha mãe, não importa se o parto é normal, natural, orgásmico ou friamente planejado; quando os filhos colocam a cabeça pra fora das suas respectivas progenitoras e espiam o mundo exterior pela primeira vez, não carregam o “Pequeno Manual Secreto” (à prova de líquido amniótico) debaixo dos braços. Pelo menos a minha obstetra não me entregou nada no hospital, além dos honorários da equipe médica.
Por outro lado, não há dúvidas de que exista um tipo de chip interno desencadeando cada fase do desenvolvimento infantil e que os bebês passem por elas de maneira, mais ou menos, similar. A minha filha, por exemplo, começou, primeiro, a firmar a cabeça; depois a sentar; faz pouco tempo que engatinha e, agora, parece pronta para ficar de pé. Tudo isso sozinha e instintivamente, sem recorrer a um tutorial disponível na internet ou à ajuda de um baby personal trainer ou ainda à leitura de um exaustivo tratado de algum pediatra ou psicólogo especializado em crianças.
Assim, por que se preocupar se o peso ou a altura está um pouco acima ou abaixo da média para a idade x ou y? Ou se os primeiros dentes de leite nasceram um pouco antes ou depois do esperado? Ou se as quantidades de cálcio, ferro, vitaminas A, C, D, E, K ingeridas diariamente estão corretas?
O bom e observador pai sabe quando o filho está saudável ou não, independente dos números descritos nos livros. (Como será que as mães de antigamente sobreviviam – e suas proles – sem os conselhos do dr. De Lamare?)
Além disso, todos nós temos nosso próprio ritmo de aprendizado, nossas limitações e primazias: faz parte daquela mala de mão (com 23 combinações de cromossomos maternos e paternos) que trazemos conosco ao mundo.
Por isso, não há dicas prontas, rápidas e fáceis para se criar uma criança.
Na verdade, não há nada realmente fácil na maternidade e até mesmo uma cesariana com hora marcada oferece riscos de vida.
Mas há várias certezas.
Um delas é que, por causa da inexistência do Pequeno Manual Secreto, estamos fadados a cometer erros com nossos filhos, assim como nossos pais cometeram com a gente, e os nossos avós antes deles...
É parte inerente da função, ou missão, de conceber outro ser humano.
No entanto, e aqui está o grande mistério dessas criaturinhas choronas, mesmo sem o tal manual, cada bebê já possui as soluções para os seus problemas, codificadas numa língua desconhecida pelos progenitores.
Leva tempo e pode demorar vários e vários meses (possivelmente anos ou até décadas!), mas bastam atenção e toneladas de paciência (outra coisa que eles deveriam trazem junto, na hora do nascimento) para desvendá-la e aprendê-la.
Porque não há “receitas de bolo”, não há “guias-passo-a-passo”, não há instruções online a serem seguidas, quando o assunto é maternidade.
Cada criança é tão diferente da outra quanto sua impressão digital.
Cada uma traz consigo uma bagagem genética única para enfrentar sua estada temporária num ambiente sócio-econômico-político-cultural-religioso-familiar também único.
Então, por que procurar as respostas dadas por outros bebês?
Como dizia minha mãe, não importa se o parto é normal, natural, orgásmico ou friamente planejado; quando os filhos colocam a cabeça pra fora das suas respectivas progenitoras e espiam o mundo exterior pela primeira vez, não carregam o “Pequeno Manual Secreto” (à prova de líquido amniótico) debaixo dos braços. Pelo menos a minha obstetra não me entregou nada no hospital, além dos honorários da equipe médica.
Por outro lado, não há dúvidas de que exista um tipo de chip interno desencadeando cada fase do desenvolvimento infantil e que os bebês passem por elas de maneira, mais ou menos, similar. A minha filha, por exemplo, começou, primeiro, a firmar a cabeça; depois a sentar; faz pouco tempo que engatinha e, agora, parece pronta para ficar de pé. Tudo isso sozinha e instintivamente, sem recorrer a um tutorial disponível na internet ou à ajuda de um baby personal trainer ou ainda à leitura de um exaustivo tratado de algum pediatra ou psicólogo especializado em crianças.
Assim, por que se preocupar se o peso ou a altura está um pouco acima ou abaixo da média para a idade x ou y? Ou se os primeiros dentes de leite nasceram um pouco antes ou depois do esperado? Ou se as quantidades de cálcio, ferro, vitaminas A, C, D, E, K ingeridas diariamente estão corretas?
O bom e observador pai sabe quando o filho está saudável ou não, independente dos números descritos nos livros. (Como será que as mães de antigamente sobreviviam – e suas proles – sem os conselhos do dr. De Lamare?)
Além disso, todos nós temos nosso próprio ritmo de aprendizado, nossas limitações e primazias: faz parte daquela mala de mão (com 23 combinações de cromossomos maternos e paternos) que trazemos conosco ao mundo.
Por isso, não há dicas prontas, rápidas e fáceis para se criar uma criança.
Na verdade, não há nada realmente fácil na maternidade e até mesmo uma cesariana com hora marcada oferece riscos de vida.
Mas há várias certezas.
Um delas é que, por causa da inexistência do Pequeno Manual Secreto, estamos fadados a cometer erros com nossos filhos, assim como nossos pais cometeram com a gente, e os nossos avós antes deles...
É parte inerente da função, ou missão, de conceber outro ser humano.
No entanto, e aqui está o grande mistério dessas criaturinhas choronas, mesmo sem o tal manual, cada bebê já possui as soluções para os seus problemas, codificadas numa língua desconhecida pelos progenitores.
Leva tempo e pode demorar vários e vários meses (possivelmente anos ou até décadas!), mas bastam atenção e toneladas de paciência (outra coisa que eles deveriam trazem junto, na hora do nascimento) para desvendá-la e aprendê-la.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
A abominável insânia do meu ser
Eu tinha 19 anos quando tentei ler Milan Kundera pela primeira vez.
Em vão. Juro que não consegui virar a página um do livro. As palavras simplesmente não faziam sentido pra mim; pareciam o próprio idioma tcheco do autor.
Assistir à adaptação cinematográfica da obra, feita por Philip Kaufman, foi igualmente perda de tempo. Naquele momento...
Era como se eu não tivesse vivido o suficiente para compreender e sentir a leveza trágica dos personagens da "cidade das cem cúpulas" e de seus chapéus-coco.
Assim como na literatura, certas canções da minha adolescência passaram por mim sem muito peso, sem substância, levitando como música de fundo num restaurante com ar-condicionado.
Só fui entender o Exagerado Cazuza, por exemplo, em 2003, depois que uma importante pessoa saiu da minha vida por vontade própria e “um troço qualquer morreu, num corte lento e profundo, entre [ele] e eu.”
Não houve poeta que melhor traduzisse a minha dor de então.
Ontem foi a vez de Legião Urbana e sua Sereníssima.
Foi quando escancarei a porta de um aposento que nunca está trancada na minha morada interior; que há anos permanece entreaberta, espreitando e esperando a hora certa pra revelar o que esconde atrás de si.
Foi ontem que o meu “animal sentimental” de olhos carmins escapou do cômodo e tomou conta da casa; quebrou pratos, derrubou móveis, rasgou cortinas e estraçalhou os vidros das janelas; saiu correndo e gritando e deixou um rastro de vazio com a destruição.
Ainda não encontrei palavras na prosa tcheca que possam descrever meu hiato de insanidade, mas tenho esperança que os versos do cantor brasileiro estejam corretos e que agora, depois de soltar a besta, consiga alcançar meu equilíbrio, já que a insânia é abominável.
Em vão. Juro que não consegui virar a página um do livro. As palavras simplesmente não faziam sentido pra mim; pareciam o próprio idioma tcheco do autor.
Assistir à adaptação cinematográfica da obra, feita por Philip Kaufman, foi igualmente perda de tempo. Naquele momento...
Era como se eu não tivesse vivido o suficiente para compreender e sentir a leveza trágica dos personagens da "cidade das cem cúpulas" e de seus chapéus-coco.
Assim como na literatura, certas canções da minha adolescência passaram por mim sem muito peso, sem substância, levitando como música de fundo num restaurante com ar-condicionado.
Só fui entender o Exagerado Cazuza, por exemplo, em 2003, depois que uma importante pessoa saiu da minha vida por vontade própria e “um troço qualquer morreu, num corte lento e profundo, entre [ele] e eu.”
Não houve poeta que melhor traduzisse a minha dor de então.
Ontem foi a vez de Legião Urbana e sua Sereníssima.
Foi quando escancarei a porta de um aposento que nunca está trancada na minha morada interior; que há anos permanece entreaberta, espreitando e esperando a hora certa pra revelar o que esconde atrás de si.
Foi ontem que o meu “animal sentimental” de olhos carmins escapou do cômodo e tomou conta da casa; quebrou pratos, derrubou móveis, rasgou cortinas e estraçalhou os vidros das janelas; saiu correndo e gritando e deixou um rastro de vazio com a destruição.
Ainda não encontrei palavras na prosa tcheca que possam descrever meu hiato de insanidade, mas tenho esperança que os versos do cantor brasileiro estejam corretos e que agora, depois de soltar a besta, consiga alcançar meu equilíbrio, já que a insânia é abominável.
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