quarta-feira, 6 de outubro de 2010

The Baby Group

Ah... Se eu soubesse que era tão saudável para nós duas, eu teria me juntado ao grupo assim que chegamos em Oxfordshire, sete meses atrás.


Mas é difícil para alguém, que desde a idade adulta nunca possuiu nada permanente além do que coubesse numa mala preta de 23 quilos, conseguir cortar o cordão emocional com a criatura mais intrigante que já entrou em sua vida.

Nem mesmo a minha mãe entendeu meu apego àquele velho e calejado modelo de poliéster da Primicia, no aeroporto de Beagá em 2008. Depois de quatro longos anos no exterior, sem Skype nem MSN, eu estava mais preocupada em avistar minha fiel companheira na esteira do terminal doméstico do que atravessar a única porta envidraçada que nos separava e abraçá-la com toda a força de nossa saudade.

Imagino que deve ter parecido um gesto de fria e insensível indiferença ao seu amor materno, mas foi apenas um ato cheio de um outro tipo de sentimento em relação à única constância na minha vida, naquele tempo todo fora do Brasil.

Hoje, eu não daria muita importância para ela em aeroporto algum do mundo, pois tenho algo mais precioso para carregar nos braços. E, pra falar a verdade, ela anda meio encostada desde que a minha pequena família de três se estabeleceu no vilarejo de Kidlington.

Nesses últimos sete meses, é da minha filha que não tiro os olhos nas saídas ao supermecado e nas visitas aos amigos; é dela que me tornei inseparável, vinte-e-quatro horas por dia, sete dias por semana. Sim, aquela mulher livre e independente foi desaparecendo, à medida que a minha mais nova bagagem de mão foi crescendo e aprendendo a gritar e a fazer manha.

Durante esses sete meses, acho que eu precisava passar por todos os bons e maus momentos da maternidade de forma intensa. Eu precisava possuir algo até a total exaustão; até a completa saciedade; até me sentir como Natalie, a personagem de Rowan Coleman, em “The Baby Group”:

Now the capable person she once was is trapped inside a crazy’s woman body, longing for just one decent night’s sleep and words of more than one syllable.
Foi essa inglesa de Hertfordshire e Jenna (a assistente social do município que ouviu, por mais de uma hora, muitas das minhas recentes estórias) que me incentivaram a participar do grupo de mães-e-bebês do Centro Infantil Kaleidoscope. Por duas horas semanais, esse conjunto heterogêneo de pessoas se assemelha muito ao instrumento físico e repleto de espelhos que dá nome ao lugar e que, a cada momento, apresenta diferentes e interessantes combinações. Mas que, no íntimo, é formado pelos mesmos elementos.

Ah... Se eu soubesse que éramos todas iguais em nossos medos, sentimentos e inexperiências, eu teria confessado minha inabilidade de possuir sozinha assim que chegamos em Oxfordshire, sete meses atrás.

Eu teria entendido que liberdade e independência são as melhores heranças que a minha filha pode receber da mulher que eu era, antes de abandonar o velho e calejado modelo de poliéster da Primicia no depósito de casa.

Para conhecer mais sobre a autora, visite o site:

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