A primeira vez foi pura falta de atenção. Já tinha ouvido falar das inúmeras estórias de assédio na Índia, pelas intercambistas. Eu sabia até me defender na língua local! Mas estava tão concentrada em atravessar aquela movimentada rodovia que separava o escritório da ONG do meu apartamento que não consegui antecipar a situação.
Lá estava eu, a meio caminho do outro lado da estrada, em pé no canteiro central e esperando o momento certo para cruzar em segurança, quando ouvi um som abafado e senti uma palmada no lado esquerdo da bunda. Depois de recuperar o equilíbrio, pude ver o motorista com ar vitorioso e metade do corpo para fora do carro. Nunca mais me destraí no trânsito. E por mais que tivesse memorizado o tal palavrão em kannada, as palavras de xingamento só saíam em português. Eu precisava me acalmar, primeiro, e de mais treino, depois, pois minha intuição me dizia que algo parecido poderia se repetir.
A segunda vez foi praticamente um convite. Estava voltando de uma viagem curta a um dos projetos da ONG, num ônibus intermunicipal, à noite e sozinha. Eu era a única estrangeira; na verdade, a única mulher naquela sombria sucata ambulante.
Estava sentada à janela, com os braços esticados no banco da frente e contando os minutos que faltavam para chegar em Bangalore, quando comecei a sentir algo perto da minha axila esquerda. Não dei muita importância, porque achei que fosse minha dupata (lenço indiano comprido para esconder a forma dos seios) esvoaçando ao vento da janela aberta. Depois de alguns minutos, senti de novo. Virei a cabeça e me deparei com uma mão estranha avançando em direção ao meu peito. Dessa vez, consegui articular as palavras em inglês. Só não pude fazer um escândalo, já que estava em franca minoria e não queria incitar mais ninguém no ônibus. Nunca mais viajei depois de escurecer.
A terceira vez foi um sentimento de falsa segurança aliado à exagerada autoconfiança. Estava há mais de três anos na Índia e já me sentia com conhecimento de causa quando o assunto era assédio. Para economizar umas rúpias e minha paciência de outra viagem num rickshaw, e queimar algumas calorias, decidi caminhar os 5 quilômetros que separam o centro da cidade do meu apartamento. Não deviam ser duas horas da tarde e eu ainda estava no trecho “nobre” do caminho, quando um grupo de homens passavam por mim e um deles passou a mão em mim. Que cena! Só faltou a polícia e algo nas mãos pra acertar no engraçadinho, já que meus gritos conseguiram juntar uma considerável multidão. Nunca mais sai de casa sem um guarda-chuvas, mesmo na estação da seca: um instrumento perfeitamente legal e extremamente barato para auto-defesa.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Pesadelo de três semanas
Parecia perfeito. Eu já havia estado em Panaji (capital do estado de Goa e antiga colônia portuguesa) várias vezes a trabalho. Na verdade, tinha sido eu a responsável por fazer os arranjos para a acomodação dos voluntários internacionais e os contatos para o projeto de três semanas, em parceria com outra ONG local.
No fundo, eu estava com muita vontade de liderar aquele acampamento. Além de ter feito a coordenação de tais eventos por quase quatro meses, treinando “team leaders” para lidar com todo o tipo de problema e personalidade, eu mesma nunca tinha sido uma, nunca tinha tido tal experiência. Estava na hora de sentir, nos ombros, o peso de tamanha responsabilidade e de colocar, em prática, tanta teoria.
Assim, na falta de outra pessoa disponível e qualificada e, no último minuto possível, antes do desembarque dos estrangeiros, fui incumbida de tal tarefa e mandada no primeiro ônibus de Bangalore para a capital de Goa.
Era manhã de 09 de agosto de 2004 e eu descia na estação central de Panaji poucas horas antes dos próprios intercambistas. Mal tive tempo de deixar minha mochila na casa que havia alugado para os próximos 21 dias e cumprimentar a família proprietária, e já tinha que voltar para receber os voluntários.
Por falta de tempo e organização, eu já começava meu acampamento quebrando a primeira regra da ONG e não carregava cartaz algum com os nomes das pessoas. Teria que confiar no meu bom senso e abordar aquelas que menos se parecessem com os típicos indianos. Soava lógico, mas eu não contava com o fato de que Panaji era visitada, todos os dias, por centenas de turistas, a maioria deles europeu, de pele clara e com cara de mochileiros, ou seja, com o perfil que eu procurava.
Depois de horas e voltas pela área central da rodoviária, havia encontrado seis dos meus sete voluntários inscritos. “A japonesa deve ter desistido na última hora”, pensei. Era, relativamente, comum naquele ramo e, extremamente, plausível naquela situação. Só tinha um problema imediato com o qual lidar: umas das estrangeiras (muçulmana, moradora de Paris e refugiada religiosa de uma das ex-colônias francesas na África) tinha tido a mala confiscada no aeroporto de Mumbai e estava apenas com a burca do corpo. Seria mais fácil encontrar roupas adequadas para ela em Hyderabad (capital indiana de maioria islâmica), mas não na Goa colonizada por portugueses cristãos! Era a primeira de uma série de dores-de-cabeça que teria em três semanas.
A segunda foi descobrir, na manhã seguinte, que a japonesa estava, sim, na Índia, mas perdida em algum ponto entre os estados de Kerala e Maharashtra. Foi uma verdadeira enxaqueca descobrir a exata localização, já que ela tinha um inglês pouco fluente. Dois dias mais tarde, com os nervos de todos à flor da pele e o programa atrasado, encontramos Mio sentada num banco da estação ferroviária de Margao, no sul de Goa. Parecia que a tempestade tinha finalmente cedido e que, dali em diante, apenas dias melhores viriam. Ilusão que pouco durou.
Além das chuvas monçônicas (que atingem o estado entre junho e setembro), começaram as tormentas diárias de reclamações. Cada voluntário queria comer algo diferente, sair para um lugar turístico diferente, fazer algo diferente. Poucos pareciam, de fato, cientes que estávamos fazendo um serviço social para a conscientização da transmissão do HIV, numa das partes da Índia que registra o maior número de casos. Poucos pareciam se dar conta da importância da mensagem que, juntos com a outra ONG local, tentávamos passar para alunos das escolas públicas da região. Poucos pareciam dar valor ao teatro de rua que apresentávamos para caminhoneiros (um dos grupos mais atingidos pelo vírus). Mas todos sabiam reclamar da água do banho que demorava para esquentar, da comida apimentada, dos mosquitos à noite, da distância que tínhamos que caminhar para chegar às escolas, da chuva, do sol, do calor, do mormaço...
Até que algo maior emergiu na rotina de todos nós: o colapso nervoso e emocional da intercambista belga. Talvez por estarmos lidando com as formas de transmissão do HIV ou talvez pelo constante assédio dos indianos em cima das européias, o fato é que no final da primeira semana, as histórias de abuso sexual na infância sofridas pela menina vieram à tona.
Por aquela ninguém esperava ou tinha estrutura psicológica para lidar. Eu mesma quase surtei com a bola de neve de problemas que crescia diariamente e, só não abandonei tudo e todos na pensão em Dona Paula (como fez uma intercambista) por falta de energia. Era imenso o esforço que eu fazia para manter a situação sob aparente controle. Várias vezes, trancada no banheiro da casa alugada, eu chorava sozinha e silenciosamente, sem o apoio do chefe da ONG em Bangalore e apenas rezando para que os dias passassem mais rapidamente e que eu pudesse voltar à minha conhecida rotina.
O golpe final foi deferido na última sexta-feira do acampamento, quando uma das estrangeiras causou uma cena e acusou a dona da pensão de ter “sumido” com o dinheiro dela. Faltando pouco mais de 48 horas para terminar o programa, tivemos que fazer as malas e procurar outro lugar, estourando o orçamento estipulado pela organização. Aquele parecia ter sido meu mais longo e atormentador pesadelo em 4 meses de Índia. Mal eu podia jurar que outros piores viriam.
No fundo, eu estava com muita vontade de liderar aquele acampamento. Além de ter feito a coordenação de tais eventos por quase quatro meses, treinando “team leaders” para lidar com todo o tipo de problema e personalidade, eu mesma nunca tinha sido uma, nunca tinha tido tal experiência. Estava na hora de sentir, nos ombros, o peso de tamanha responsabilidade e de colocar, em prática, tanta teoria.
Assim, na falta de outra pessoa disponível e qualificada e, no último minuto possível, antes do desembarque dos estrangeiros, fui incumbida de tal tarefa e mandada no primeiro ônibus de Bangalore para a capital de Goa.
Era manhã de 09 de agosto de 2004 e eu descia na estação central de Panaji poucas horas antes dos próprios intercambistas. Mal tive tempo de deixar minha mochila na casa que havia alugado para os próximos 21 dias e cumprimentar a família proprietária, e já tinha que voltar para receber os voluntários.
Por falta de tempo e organização, eu já começava meu acampamento quebrando a primeira regra da ONG e não carregava cartaz algum com os nomes das pessoas. Teria que confiar no meu bom senso e abordar aquelas que menos se parecessem com os típicos indianos. Soava lógico, mas eu não contava com o fato de que Panaji era visitada, todos os dias, por centenas de turistas, a maioria deles europeu, de pele clara e com cara de mochileiros, ou seja, com o perfil que eu procurava.
Depois de horas e voltas pela área central da rodoviária, havia encontrado seis dos meus sete voluntários inscritos. “A japonesa deve ter desistido na última hora”, pensei. Era, relativamente, comum naquele ramo e, extremamente, plausível naquela situação. Só tinha um problema imediato com o qual lidar: umas das estrangeiras (muçulmana, moradora de Paris e refugiada religiosa de uma das ex-colônias francesas na África) tinha tido a mala confiscada no aeroporto de Mumbai e estava apenas com a burca do corpo. Seria mais fácil encontrar roupas adequadas para ela em Hyderabad (capital indiana de maioria islâmica), mas não na Goa colonizada por portugueses cristãos! Era a primeira de uma série de dores-de-cabeça que teria em três semanas.
A segunda foi descobrir, na manhã seguinte, que a japonesa estava, sim, na Índia, mas perdida em algum ponto entre os estados de Kerala e Maharashtra. Foi uma verdadeira enxaqueca descobrir a exata localização, já que ela tinha um inglês pouco fluente. Dois dias mais tarde, com os nervos de todos à flor da pele e o programa atrasado, encontramos Mio sentada num banco da estação ferroviária de Margao, no sul de Goa. Parecia que a tempestade tinha finalmente cedido e que, dali em diante, apenas dias melhores viriam. Ilusão que pouco durou.
Além das chuvas monçônicas (que atingem o estado entre junho e setembro), começaram as tormentas diárias de reclamações. Cada voluntário queria comer algo diferente, sair para um lugar turístico diferente, fazer algo diferente. Poucos pareciam, de fato, cientes que estávamos fazendo um serviço social para a conscientização da transmissão do HIV, numa das partes da Índia que registra o maior número de casos. Poucos pareciam se dar conta da importância da mensagem que, juntos com a outra ONG local, tentávamos passar para alunos das escolas públicas da região. Poucos pareciam dar valor ao teatro de rua que apresentávamos para caminhoneiros (um dos grupos mais atingidos pelo vírus). Mas todos sabiam reclamar da água do banho que demorava para esquentar, da comida apimentada, dos mosquitos à noite, da distância que tínhamos que caminhar para chegar às escolas, da chuva, do sol, do calor, do mormaço...
Até que algo maior emergiu na rotina de todos nós: o colapso nervoso e emocional da intercambista belga. Talvez por estarmos lidando com as formas de transmissão do HIV ou talvez pelo constante assédio dos indianos em cima das européias, o fato é que no final da primeira semana, as histórias de abuso sexual na infância sofridas pela menina vieram à tona.
Por aquela ninguém esperava ou tinha estrutura psicológica para lidar. Eu mesma quase surtei com a bola de neve de problemas que crescia diariamente e, só não abandonei tudo e todos na pensão em Dona Paula (como fez uma intercambista) por falta de energia. Era imenso o esforço que eu fazia para manter a situação sob aparente controle. Várias vezes, trancada no banheiro da casa alugada, eu chorava sozinha e silenciosamente, sem o apoio do chefe da ONG em Bangalore e apenas rezando para que os dias passassem mais rapidamente e que eu pudesse voltar à minha conhecida rotina.
O golpe final foi deferido na última sexta-feira do acampamento, quando uma das estrangeiras causou uma cena e acusou a dona da pensão de ter “sumido” com o dinheiro dela. Faltando pouco mais de 48 horas para terminar o programa, tivemos que fazer as malas e procurar outro lugar, estourando o orçamento estipulado pela organização. Aquele parecia ter sido meu mais longo e atormentador pesadelo em 4 meses de Índia. Mal eu podia jurar que outros piores viriam.
Perdida nas ruas de Bangalore
Desde 96, quando morei no exterior pela primeira vez, tinha aprendido que, para conhecer um lugar a fundo e de fato, era preciso se perder primeiro.
Por isso, nos meus finais de semana, eu me perdia nas ruas de Bangalore. Eu saía da sede da FSL de manhã cedo e caminhava sem rumo e por horas, apenas com uma garrafa de água e o mapa da cidade: me perdendo, me achando e me perdendo novamente, até voltar, no fim da tarde, ao ponto que tinha começado.
Naquelas primeiras semanas, eu estava perdidamente apaixonada pela Índia: pelo choque cultural de cores e sabores, pelas vacas sagradas e pelos sáris mundanos e, principalmente, por aquelas figuras exóticas de turbantes que se reuniam num templo perto da organização.
Assim como os cristãos, eles também são batizados, mas proibidos de se divorciarem e têm seus corpos cremados após a morte.
Era muita informação para ser absorvida numa única visita. Precisaria de muitos outros finais de semana, dentro e fora do Gurudwara, para entender um pouco mais sobre o sikhismo. E o que me incitava a continuar com minhas buscas exploratórias era a esperaça de rever um Sikh em particular.
Aconteceu por acaso, numa das primeiras caminhadas pelas ruas de Bangalore. Um rapaz todo de branco e turbante passou por mim de bicicleta, me olhando diretamente nos olhos. Sorri e ele fez um retorno e passou, novamente, por mim, também sorrindo. Dessa vez, seguiu na bicicleta... até desaparecer, se perder em alguma rua de Bangalore.
E por mais interessada que estivesse em saber mais sobre a religião, eu queria mesmo era ver o que se escondia por baixo daquele misterioso turbante. E eu tinha certeza que o destino também sorriria pra mim e me daria tal oportunidade. Mais cedo ou mais tarde.
Por isso, nos meus finais de semana, eu me perdia nas ruas de Bangalore. Eu saía da sede da FSL de manhã cedo e caminhava sem rumo e por horas, apenas com uma garrafa de água e o mapa da cidade: me perdendo, me achando e me perdendo novamente, até voltar, no fim da tarde, ao ponto que tinha começado.
Naquelas primeiras semanas, eu estava perdidamente apaixonada pela Índia: pelo choque cultural de cores e sabores, pelas vacas sagradas e pelos sáris mundanos e, principalmente, por aquelas figuras exóticas de turbantes que se reuniam num templo perto da organização.
Aqueles eram Sikhs - seguidores de uma religião pouco conhecida pela maioria dos brasileiros - buscando conforto espiritual na casa de Deus, o Gurudwara. Eles são mais de 25 milhões fiéis espalhados pelo mundo, mas representam uma pequena comunidade em Karnataka, longe do seu estado indiano de origem (Punjab); são uma minoria de apenas 2%, num país predominantemente hindu.
Eles acreditam em reencarnação e num único e onipresente criador; e são uma mistura recente (a religião foi criada no século 15, a partir dos ensinamentos do Guru Nanak) de partes do hinduísmo e do islamismo.
O cabelo (kēs) é considerado sagrado e permanece coberto e fora do alcance das tesouras desde o nascimento. Por isso, a profusão de turbantes e véus e a escolha do pente (kaṅghā) como o segundo dos 5 Ks usados pelos homens dessa religião como acessórios da fé. Os demais Ks são o kaṛā (uma pulseira de metal), o kirpān (uma pequena espada ceremonial) e o kacchā (uma roupa de baixo especial).
Assim como os cristãos, eles também são batizados, mas proibidos de se divorciarem e têm seus corpos cremados após a morte.
Era muita informação para ser absorvida numa única visita. Precisaria de muitos outros finais de semana, dentro e fora do Gurudwara, para entender um pouco mais sobre o sikhismo. E o que me incitava a continuar com minhas buscas exploratórias era a esperaça de rever um Sikh em particular.
Aconteceu por acaso, numa das primeiras caminhadas pelas ruas de Bangalore. Um rapaz todo de branco e turbante passou por mim de bicicleta, me olhando diretamente nos olhos. Sorri e ele fez um retorno e passou, novamente, por mim, também sorrindo. Dessa vez, seguiu na bicicleta... até desaparecer, se perder em alguma rua de Bangalore.
E por mais interessada que estivesse em saber mais sobre a religião, eu queria mesmo era ver o que se escondia por baixo daquele misterioso turbante. E eu tinha certeza que o destino também sorriria pra mim e me daria tal oportunidade. Mais cedo ou mais tarde.
Assinar:
Postagens (Atom)
